ESTRANHO QUE HABITA EM MIM
Fui tantos para não desaparecer,
Vesti o silêncio e disfarcei a dor;
Fiz da existência um modo de esconder
As cicatrizes que deixou o amor.
Fui fortaleza quando quis ceder,
Fui calmaria em meio ao dissabor;
E, para o mundo inteiro não perceber,
Matei em mim a voz do meu clamor.
Hoje, no espelho, um estranho me olha,
Tem meus traços, conhece o que vivi;
Mas não responde à dor que me recolha.
Busco o que resta do que fui em mim;
E, enquanto a voz soterrada não se encolha,
Talvez eu volte a me encontrar, enfim.