EMPENHADOS EM AJUDAR
Texto-base: Romanos 14.19
“Assim, pois, sigamos as coisas que contribuem para a paz e também as que são para a edificação mútua.” (Romanos 14.19)
1. Uma igreja saudável começa com relacionamentos saudáveis
Em seu livro O que é uma Igreja Saudável?, publicado pela Editora Fiel, Mark Dever apresenta características fundamentais que nos ajudam a discernir os sinais de saúde espiritual de uma comunidade cristã. Entre elas, destaco uma que considero indispensável: o compromisso dos cristãos com o bem-estar uns dos outros.
Uma igreja saudável não é apenas aquela que se reúne regularmente, possui uma boa estrutura organizacional ou desenvolve uma programação religiosa eficiente. É, sobretudo, aquela cujos membros demonstram disposição para amar, servir, acolher e caminhar juntos. Nela, a comunhão não se limita aos encontros no templo, e o amor cristão não permanece restrito ao discurso. Ambos se tornam visíveis nas atitudes cotidianas.
É nesse contexto que a exortação de Paulo ganha relevância: devemos nos empenhar naquilo que promove a paz e contribui para a edificação mútua. Não se trata apenas de evitar conflitos, mas de assumir uma postura ativa na construção de relacionamentos que fortaleçam a fé, preservem a unidade e favoreçam o crescimento espiritual de todos.
Tiago acrescenta a essa perspectiva uma imagem profundamente significativa: “O fruto da justiça semeia-se em paz para os que promovem a paz” (Tiago 3.18). A paz, portanto, não é apenas uma condição desejável da vida comunitária; é também o ambiente no qual a justiça floresce e os relacionamentos são edificados.
Quando uma igreja compreende essa verdade e a transforma em prática, ela ultrapassa os limites de uma religiosidade superficial e experimenta a profundidade da comunhão cristã. Deixa de ser apenas um agrupamento de pessoas que compartilham a mesma fé e passa a ser uma comunidade comprometida com a vida, as necessidades e o amadurecimento espiritual de seus integrantes.
2. Do individualismo à responsabilidade mútua
Transcender a superficialidade dos relacionamentos significa romper com a lógica individualista que frequentemente governa a sociedade. A máxima popular “cada um por si e Deus por todos” não pode constituir o princípio orientador da vida cristã. Nossa referência deve ser a disposição de viver uns pelos outros, assumindo responsabilidades que ultrapassem os limites dos interesses pessoais.
A célebre expressão “um por todos e todos por um”, associada aos mosqueteiros de Alexandre Dumas, sintetiza essa ideia de lealdade e solidariedade. Embora tenha origem na literatura, ela nos oferece uma ilustração daquilo que a comunidade cristã deve expressar: pessoas que permanecem comprometidas umas com as outras, inclusive quando as circunstâncias tornam esse compromisso difícil.
Na igreja, precisamos aprender a reconhecer o valor de cada indivíduo, compreendendo que todos foram criados por Deus e que a graça divina nos alcança sem que possamos reivindicá-la como mérito pessoal. O irmão que caminha ao nosso lado não é um mero frequentador dos mesmos cultos, mas alguém com quem compartilhamos a responsabilidade de viver a fé.
Seguir a Cristo implica assumir compromissos que não se restringem à nossa experiência religiosa individual. Paulo, ao falar dos cristãos da Macedônia, registra que eles primeiramente se entregaram ao Senhor e, depois, aos irmãos, pela vontade de Deus (2 Coríntios 8.5). Essa ordem é significativa: a entrega a Cristo produz consequências concretas na maneira como nos relacionamos com o próximo.
Somos seres relacionais, criados para viver em comunidade. Por isso, nossa caminhada cristã deve se expressar em compromissos reais com a família, o trabalho, a igreja e as pessoas que Deus coloca em nosso caminho. A fé que professamos precisa encontrar correspondência na maneira como cuidamos uns dos outros.
3. Edificar a igreja é mais do que construir um templo
Edificar uma igreja não é tarefa simples. Construir um templo, embora exija recursos, planejamento e esforço, é diferente de edificar a igreja como corpo de Cristo. Nesse segundo sentido, falamos de pessoas, histórias, feridas, limitações, expectativas e necessidades que não podem ser tratadas de maneira superficial.
A igreja de Cristo não é edificada somente por meio de sermões, reuniões, eventos ou projetos ministeriais. Ela também cresce quando seus membros aprendem a exercer a paciência, a humildade, a sensatez, a honestidade e a sabedoria nos relacionamentos.
A liderança tem papel importante nesse processo, mas a responsabilidade pela edificação não pertence exclusivamente ao pastor ou aos líderes. Cada membro é chamado a contribuir para o bem comum, reconhecendo que a saúde da comunidade depende, em parte, da maneira como cada um exerce sua responsabilidade diante dos demais.
Ser igreja é viver uma experiência de comunhão que ultrapassa os encontros semanais. É transformar o irmão em alguém cuja vida realmente nos importa. Isso pode acontecer em gestos simples: compartilhar um café, conversar depois do trabalho, jogar uma partida de futebol no domingo, visitar alguém no hospital, interessar-se pelas dificuldades profissionais de um irmão ou oferecer ajuda quando a família atravessa uma crise.
São atitudes aparentemente pequenas, mas que podem revelar uma grande verdade espiritual: o amor cristão não se manifesta apenas em grandes demonstrações públicas; ele também se revela na constância silenciosa de quem se dispõe a estar presente.
O livro de Provérbios afirma que há amigo mais chegado do que um irmão (Provérbios 18.24). Essa proximidade não se mede apenas pela frequência dos encontros, mas pela qualidade do vínculo, pela confiança construída e pela disposição de permanecer ao lado do outro nos momentos difíceis.
Por isso, precisamos avaliar nossos relacionamentos não apenas pela quantidade de pessoas que conhecemos, mas pela qualidade dos compromissos que assumimos com elas.
4. A qualidade da comunhão importa mais do que a aparência dos relacionamentos
Vivemos em uma época na qual as redes sociais multiplicam contatos, mas nem sempre produzem proximidade verdadeira. Podemos reunir centenas ou milhares de pessoas em nossas listas de amigos e, ainda assim, experimentar relações marcadas pela superficialidade, pela desconfiança, pela crítica e pela ausência de compromisso.
De que adianta possuir tantos contatos se não conseguimos estabelecer com alguns deles uma relação de respeito, lealdade e cuidado mútuo?
A amizade cristã não se sustenta apenas na afinidade de opiniões, na conveniência ou na satisfação de interesses pessoais. Ela exige disposição para ouvir, compreender, perdoar, corrigir com amor e permanecer presente quando o outro já não tem muito a oferecer.
Isso não significa tolerar abusos, encobrir o pecado ou abandonar a necessidade de estabelecer limites saudáveis. Amar não é concordar indiscriminadamente com tudo, mas buscar o bem do outro de maneira sincera, responsável e coerente com a verdade do evangelho.
Romanos 5.8 nos recorda a profundidade desse amor: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. O amor de Deus não foi uma recompensa por nossa amabilidade; foi uma demonstração de graça quando ainda estávamos distantes dele.
Essa verdade deve confrontar a maneira como nos relacionamos na igreja. Se fomos alcançados por um amor que não merecíamos, não podemos condicionar toda a nossa disposição de amar à perfeição daqueles que convivem conosco.
O amor cristão, portanto, não é ausência de discernimento, mas compromisso com o bem do próximo, mesmo quando esse compromisso exige renúncia, paciência e maturidade.
5. A presença também é uma forma de ministério
Uma das expressões mais concretas do compromisso cristão é a presença.
Estar presente na vida de alguém é comunicar, por meio de atitudes, que aquela pessoa não está sozinha. É demonstrar interesse genuíno por suas lutas, alegrias, perdas e esperanças. Muitas vezes, a presença não elimina o sofrimento, mas impede que o sofrimento seja enfrentado em completo isolamento.
Hebreus 10.24-25 nos exorta a considerar uns aos outros, estimulando-nos ao amor e às boas obras, sem abandonar a prática de nos reunirmos. O texto não trata a reunião dos cristãos como um simples compromisso de agenda, mas a relaciona diretamente ao encorajamento mútuo.
Precisamos, entretanto, compreender que estar presente é mais do que ocupar o mesmo espaço físico. Podemos frequentar os mesmos cultos e continuar indiferentes à realidade daqueles que se sentam ao nosso lado. A verdadeira presença exige atenção, escuta, disponibilidade e interesse.
Nesse sentido, a frase atribuída a Jim Elliot — “Onde quer que estiverem, estejam todos lá” — pode ser tomada como uma provocação à nossa maneira de viver a comunhão: quando estivermos com alguém, que nossa presença seja inteira, e não apenas física.
Quantas pessoas frequentam nossas igrejas carregando dores que ninguém conhece? Quantas enfrentam crises conjugais, dificuldades financeiras, enfermidades, lutos e conflitos interiores sem encontrar alguém disposto a ouvi-las?
Uma igreja saudável não precisa ter respostas imediatas para todos os problemas, mas deve cultivar uma comunidade na qual as pessoas encontrem acolhimento, cuidado e disposição para caminhar juntas.
6. Nossos dons devem servir à edificação de todos
Deus não distribui capacidades e dons para alimentar a vaidade individual ou produzir uma competição entre os membros da igreja. Paulo afirma: “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso” (1 Coríntios 12.7).
O princípio é claro: os dons recebidos devem contribuir para o bem comum.
A igreja empobrece quando seus membros se tornam espectadores permanentes da vida comunitária, esperando que o pastor, os líderes ou algumas pessoas mais atuantes realizem todo o trabalho. O corpo de Cristo não foi constituído para funcionar pela atuação isolada de poucos, mas pela cooperação de seus muitos membros.
Em Romanos 12.4-5, Paulo compara a comunidade cristã ao corpo humano: embora possuamos muitos membros, não desempenhamos todos a mesma função; em Cristo, somos muitos, mas formamos um só corpo e pertencemos uns aos outros.
Essa imagem nos ensina que a diversidade não deve ser motivo de rivalidade, mas de cooperação. Nem todos possuem as mesmas habilidades, os mesmos recursos ou as mesmas possibilidades, mas todos podem encontrar maneiras de contribuir.
Alguns sabem ensinar; outros, ouvir. Alguns dispõem de recursos financeiros; outros oferecem tempo, conhecimento, trabalho ou uma palavra de encorajamento. Há quem possa visitar, aconselhar, acompanhar, organizar, servir ou simplesmente permanecer ao lado de alguém em um momento de dor.
O importante não é fazer tudo, mas colocar aquilo que recebemos a serviço do próximo.
Uma igreja se torna mais saudável quando seus membros deixam de perguntar apenas o que podem receber da comunidade e passam a perguntar também o que podem oferecer para a edificação dos irmãos.
7. A comunhão começa com uma decisão concreta
Diante dessas verdades, precisamos transformar a reflexão em prática.
Você já se aproximou de alguém da sua igreja, para além dos vínculos familiares, e lhe demonstrou uma disposição sincera de caminhar junto? Já ofereceu ajuda sem esperar ser solicitado? Já tomou a iniciativa de fortalecer uma amizade, visitar alguém que se afastou ou procurar um irmão que atravessa um período difícil?
Talvez você nunca tenha dito a alguém: “Quero que nossa amizade cresça. Quero conhecer melhor sua história e estar disponível quando você precisar”. No entanto, palavras assim, quando acompanhadas de atitudes coerentes, podem abrir caminhos para relacionamentos mais profundos e uma comunhão mais autêntica.
Não precisamos esperar uma grande oportunidade para começar. Podemos começar hoje, em nosso pequeno grupo, na igreja local, em nossa vizinhança ou entre aqueles com quem convivemos diariamente.
A edificação mútua começa quando deixamos de tratar as pessoas como parte de nossa rotina religiosa e passamos a reconhecê-las como irmãos pelos quais também somos responsáveis.
É nesse ponto que Romanos 14.19 deixa de ser apenas um versículo conhecido e se torna uma orientação para a vida: devemos nos empenhar, deliberadamente, naquilo que promove a paz e edifica o próximo.
Não basta desejar uma igreja saudável. Precisamos participar de sua construção. Não basta falar sobre comunhão. Precisamos praticá-la. Não basta afirmar que amamos os irmãos. Precisamos permitir que esse amor seja reconhecido por meio de nossas escolhas, de nosso tempo e de nossas atitudes.
Ser igreja é assumir o compromisso de não caminhar sozinho quando podemos caminhar juntos. É compreender que a maturidade cristã não se revela somente na profundidade de nosso conhecimento bíblico, mas também na disposição de transformar esse conhecimento em serviço, cuidado e amor.
Que o Senhor nos conceda sabedoria para edificar uns aos outros, humildade para reconhecer nossas limitações e graça para permanecermos comprometidos com o bem comum. Que nossas igrejas sejam comunidades nas quais a verdade não se separe do amor, a comunhão não se limite às palavras e a fé produza frutos visíveis na vida daqueles que caminham conosco.
Que tenhamos uma semana abençoada, marcada pela paz, pela alegria no Senhor e por oportunidades concretas de servir e fortalecer nossos irmãos.
Prado, Bahia, 13 de Setembro de 2014