SOLIDÃO A DOIS
Ela errou.
Eu também.
E o amor, que um dia nos fez tão bem,
Foi se perdendo naquilo que não dissemos,
Nos gestos que negamos,
Nos abraços que esquecemos.
Ela falhou.
Eu falhei.
E, sem perceber, nos distanciamos.
A mesma cama,
O mesmo teto,
Mas já não nos encontrávamos.
Ela cansou.
Eu cansei.
E a magia que havia entre nós
Foi se apagando, lentamente,
Como uma luz esquecida
Num quarto sem gente.
Eu me calei.
Ela se fechou.
Eu esperei.
Ela não voltou.
E o tempo, indiferente à nossa dor,
Fez da convivência um disfarce para a falta de amor.
Hoje, somos dois na mesma morada,
Duas histórias, nenhuma estrada.
Compartilhamos o espaço,
Mas não a intimidade;
Dividimos os dias,
Mas não a cumplicidade.
Eu errei, ela errou.
Quem foi que mais pecou?
Se ambos feriram,
Por que apenas um sangrou?
Quando ela errou, encontrei espaço para perdoar.
Quando eu errei, não encontrei lugar para recomeçar.
E assim ficou nossa realidade:
Dois estranhos preservando as aparências,
Dois corações sobrevivendo à saudade
Daquilo que um dia chamaram de felicidade.
Não sei se ainda somos amor,
Ou apenas medo da despedida.
Só sei que há solidões tão profundas
Que acontecem entre duas pessoas
Que ainda dividem a vida.
Porto Seguro, Bahia, 06 de Maio de 2019