QUANDO O ESPELHO COMEÇA A DIZER A VERDADE
Há dias em que eu olho para o espelho e demoro alguns segundos para reconhecer aquele rosto. Não porque ele seja de outra pessoa, mas porque ainda guardo dentro de mim a imagem de um homem que já não existe exatamente como antes.
O rosto mudou. A pele já não tem a mesma firmeza. Os olhos carregam um cansaço que antes não carregavam. Os cabelos foram mudando de cor até que alguns deles simplesmente decidiram partir. O corpo já não responde com a mesma disposição. Há coisas que antes eu fazia sem pensar e que hoje exigem esforço. E eu percebo.
O tempo passou. Não passou apenas pelo calendário. Passou pelo meu rosto. Passou pelas minhas mãos. Passou pela minha disposição. Passou pelos meus desejos. Passou pela minha maneira de olhar para a vida. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de admitir: eu estou envelhecendo. Não estou apenas ficando mais velho. Estou perdendo. Perdendo força. Perdendo velocidade. Perdendo algumas certezas. Perdendo pessoas. Perdendo possibilidades que um dia pareciam intermináveis. Há sonhos que já não cabem na minha idade. Há caminhos que ficaram para trás. Há coisas que eu gostaria de ter feito e sei que talvez nunca faça. E isso dói. Dói porque, durante muito tempo, a gente vive como se tivesse tempo de sobra. A gente adia. A gente espera. A gente deixa para depois. A gente imagina que amanhã estará disponível. Até que um dia o espelho nos lembra que o amanhã também envelhece.
E então começamos a perceber que a vida não é aquilo que ainda podemos fazer apenas. Ela também é aquilo que já não podemos mais fazer. Talvez seja essa a parte mais silenciosa da velhice. Ninguém precisa nos dizer que estamos envelhecendo. O corpo diz. O espelho diz. As limitações dizem. A memória de quem éramos diz. E, às vezes, uma fotografia antiga diz mais do que qualquer palavra.
Olho para uma fotografia minha de muitos anos atrás e encontro um homem que ainda não sabia tudo aquilo que a vida iria cobrar dele. Ele não sabia quantas vezes teria de recomeçar. Não sabia quantas pessoas iriam chegar e partir. Não sabia quantas decepções enfrentaria. Não sabia que algumas promessas seriam quebradas, que alguns abraços seriam os últimos, que algumas pessoas que pareciam eternas se tornariam apenas lembranças. Ele não sabia. E talvez seja melhor assim. Porque, se soubéssemos antecipadamente tudo o que a vida nos faria atravessar, talvez tivéssemos medo demais para viver.
Hoje, olhando para trás, percebo que meu corpo também guarda uma história. Cada marca tem alguma coisa para contar. Algumas nasceram do tempo. Outras, das preocupações. Algumas, das alegrias. Outras, das dores que ninguém viu. O corpo envelhece em silêncio. Até que um dia percebemos que ele começou a denunciar aquilo que durante muito tempo tentamos esquecer: somos passageiros. Essa talvez seja a verdade que mais me incomoda. Não vou permanecer. Eu sei disso. Sempre soube. Mas saber intelectualmente é uma coisa. Sentir isso no próprio corpo é outra.
Existe uma diferença enorme entre saber que a morte existe e perceber que ela também está caminhando na nossa direção. Não digo isso com desespero. Digo com uma certa tristeza. Uma tristeza serena, talvez. Porque começo a compreender que a vida não está terminando apenas quando chegar o último dia. Ela está terminando um pouco todos os dias. Cada manhã que passa não volta. Cada ano que termina leva alguma coisa consigo. Cada pessoa que parte deixa um espaço que não será exatamente preenchido. Cada aniversário, quando chegamos a uma determinada idade, deixa de ser apenas uma comemoração. Passa a ser também uma contagem. Mais um ano vivido. E um ano a menos pela frente.
É estranho pensar assim. Mas é verdadeiro. Talvez por isso eu esteja aprendendo a olhar para o tempo de outra maneira. Não quero mais fingir que não vejo minhas marcas. Não quero esconder minha idade. Não quero me revoltar contra cada ruga como se ela fosse uma ofensa. Elas não são. Elas são testemunhas. Testemunhas de que eu vivi. De que atravessei dias bons e dias ruins. De que caí e levantei. De que perdi pessoas. De que fui decepcionado. De que também decepcionei. De que amei. De que fui amado. De que errei. De que acertei algumas vezes. De que sobrevivi a coisas que, em algum momento, pensei que não conseguiria suportar.
Então, quando olho para o espelho, já não quero perguntar apenas: “Onde foi parar aquele homem?” Quero também perguntar: “O que aconteceu com ele?” E a resposta está no meu próprio rosto. Ele está aqui. Um pouco mais cansado. Um pouco mais marcado. Um pouco mais consciente da fragilidade de tudo. Talvez menos ingênuo. Talvez mais triste. Mas também mais agradecido. Porque existe uma coisa que a juventude dificilmente compreende: chegar mais velho é, de certa forma, ter sobrevivido ao tempo. E eu cheguei. Ainda estou aqui. Ainda posso olhar para o céu. Ainda posso ouvir uma música e me emocionar. Ainda posso abraçar quem amo. Ainda posso rir. Ainda posso pedir perdão. Ainda posso dizer “eu te amo”. Ainda posso contemplar uma manhã. Ainda posso escrever. Ainda posso viver. Mesmo que já não seja como antes. Talvez esse seja o meu maior aprendizado diante da finitude: não preciso ser o homem que fui para continuar sendo alguém.
O tempo levou muita coisa. Mas não levou tudo. E enquanto houver alguma coisa em mim capaz de sentir, amar, lembrar, agradecer e contemplar, ainda haverá vida acontecendo. Por isso, hoje, quando o espelho me mostra um homem mais velho, eu tento não desviar o olhar. Olho. Demoro. Aceito.
Há tristeza naquele rosto. Há cansaço. Há marcas. Há sinais de decrepitude que eu preferiria não enxergar. Mas há também uma história. A minha história. E talvez seja isso que, no fim, eu tenha de aprender: não lutar desesperadamente contra o envelhecimento, mas recebê-lo com a dignidade possível. Porque um dia o espelho deixará de estar diante de mim. Um dia não haverá mais rugas para observar. Nem cabelos brancos. Nem mãos envelhecidas. Nem corpo para reclamar. Um dia tudo isso terá passado. E, quando esse dia chegar, eu só espero ter conseguido olhar para a vida — inclusive para sua parte mais dolorosa — e dizer: foi breve, foi difícil, foi bonito, foi imperfeito... mas foi minha. E eu vivi.
A música? My Way - Robbie Williams