ENTRE A CULPA E O DESEJO
Há momentos em que passamos tanto tempo tentando corresponder às expectativas do outro que começamos a pedir desculpas por aquilo que sentimos.
Pedimos desculpas por amar demais, por não conseguir amar, por ter desejado ficar, por ter escolhido partir. Pedimos desculpas por aquilo que fizemos e, muitas vezes, até pelo que não conseguimos fazer.
Mas, do ponto de vista psicanalítico, talvez seja necessário perguntar: por que você sente que precisa se desculpar por existir como sujeito desejante? Nem todo desejo realizado produz felicidade. E nem todo desejo impedido desaparece. Alguns permanecem no inconsciente, retornando como angústia, ressentimento, culpa, silêncio ou repetição.
Às vezes, aquilo que dizemos que não queremos continua ocupando um lugar importante dentro de nós. E aquilo que acreditamos querer pode estar profundamente atravessado pelo desejo do outro.
Por isso, antes de se condenar pelas suas escolhas, talvez seja necessário escutar o que estava em jogo quando você escolheu. Você fez o que podia fazer com os recursos psíquicos que possuía naquele momento. Isso não significa transformar todas as escolhas em acertos. Significa compreender que culpa e responsabilidade não são a mesma coisa. A culpa pode nos aprisionar ao passado: “Eu deveria ter feito diferente.”
A elaboração psíquica pergunta: “O que naquela escolha dizia respeito a mim? O que eu estava tentando preservar, evitar, conquistar ou reparar?” Essa pergunta muda tudo.
Talvez você tenha permanecido onde já não havia espaço para permanecer porque tinha medo de perder o amor. Talvez tenha endurecido as palavras porque não encontrou outra maneira de proteger uma ferida. Talvez tenha desistido de algo que desejava porque, em algum momento, aprendeu que desejar demais poderia trazer sofrimento.
E talvez algumas tristezas que você carrega hoje não sejam sinais de fracasso, mas marcas de desejos que ainda precisam ser reconhecidos. Não se trata de justificar tudo o que você fez. Trata-se de compreender-se. Porque aquilo que não compreendemos tende a se repetir.
A psicanálise não promete apagar o passado. Ela oferece a possibilidade de transformar a relação que temos com aquilo que vivemos. Você não precisa pedir desculpas por ter sido quem conseguiu ser naquele momento. Mas pode assumir, hoje, a responsabilidade por perguntar: “Quem estou me tornando a partir daquilo que vivi?”
Talvez amadurecer seja justamente isso: deixar de viver tentando obter absolvição de todos e começar a escutar, com honestidade, aquilo que existe dentro de si. Nem tudo poderá ser reparado. Nem tudo poderá ser vivido. Nem todo amor poderá ser correspondido. Nem toda escolha poderá ser refeita. Mas ainda existe algo que pode ser transformado: a maneira como você se posiciona diante da própria história.
E talvez a verdadeira liberdade não esteja em não carregar marcas, mas em não permitir que elas continuem decidindo, silenciosamente, o rumo da sua vida.