DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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QUANDO O OUTRO SE TORNA O ESPELHO DO QUE NÃO QUERO VER

Tenho observado, ao longo da minha própria experiência com as pessoas e comigo mesmo, como é fácil encontrar no outro um culpado.

Diante de um conflito, posso rapidamente assumir o lugar de juiz; diante de um comportamento que desaprovo, tornar-me promotor; diante de uma falha alheia, transformar-me em comentarista. E, quando a indignação cresce, percebo que já não estou interessado em compreender — quero condenar.

É curioso perceber como posso saber exatamente o que há de errado nos outros e, ao mesmo tempo, demonstrar enorme dificuldade para reconhecer aquilo que acontece dentro de mim.

A psicanálise me convida a desconfiar dessa aparente clareza. Não porque todo julgamento seja projeção, nem porque toda crítica esconda necessariamente um desejo inconsciente. Mas porque existe algo profundamente humano na minha dificuldade de reconhecer em mim aquilo que me incomoda quando aparece no outro.

Freud percebeu que o psiquismo possui maneiras engenhosas de manter determinadas experiências afastadas da consciência. Quando um traço meu ameaça aparecer, posso encontrá-lo primeiro no outro.

É mais confortável enxergar fora aquilo que seria angustiante reconhecer dentro de mim. Então, aquilo que em mim seria motivo de conflito, no outro transforma-se em defeito. Aquilo que em mim seria desejo, no outro pode aparecer como perversão. Aquilo que em mim seria agressividade, no outro torna-se monstruosidade. Aquilo que em mim seria inveja, no outro recebe o nome de arrogância. E aquilo que em mim seria uma fragilidade difícil de admitir pode ser percebido no outro como incompetência. O outro passa a carregar aquilo que eu não consigo suportar como sendo meu. É o mecanismo da projeção.

Freud, ao discutir a negação, em 1925, mostrou algo ainda mais interessante: posso reconhecer determinado conteúdo psíquico justamente no momento em que o recuso. É possível que algo chegue à minha consciência acompanhado de um “não”. “Não sou assim.” “Isso não tem nada a ver comigo.” “Eu jamais faria uma coisa dessas.” E, paradoxalmente, percebo que a necessidade de negar pode revelar a importância psíquica daquilo que estou tentando negar. Por isso, algumas das minhas reações diante dos defeitos alheios podem possuir uma intensidade que ultrapassa o próprio acontecimento. Talvez não seja apenas o que o outro fez. Talvez seja aquilo que o que o outro fez despertou em mim.

Essa percepção me conduz a uma pergunta que pode ser muito mais reveladora do que simplesmente perguntar: “O que há de errado com essa pessoa?” Pergunto a mim mesmo: “Por que isso me incomoda tanto?” Essa pergunta me desloca. Deixo de olhar exclusivamente para o outro e começo a olhar para a minha própria reação. E talvez seja justamente nesse movimento que a psicanálise comece a produzir seu efeito: quando percebo que não sou apenas espectador daquilo que acontece, mas também participo, ainda que inconscientemente, da maneira como aquilo me afeta.

O outro pode funcionar como um espelho. E ninguém gosta de descobrir, num espelho, uma imagem que passou a vida tentando não reconhecer. Por isso, às vezes, percebo que minha indignação monumental diante do defeito alheio guarda uma curiosa intimidade comigo mesmo. Não porque eu seja necessariamente igual àquele que condeno. Mas porque aquilo que condeno pode tocar alguma coisa minha.

Talvez seja por isso que eu, e tantas outras pessoas, possamos passar tanto tempo falando sobre os outros. Falo sobre seus erros, seus desejos, suas fraquezas, suas contradições, seus fracassos. E, sem perceber, posso acabar revelando algo sobre mim mesmo. O problema é que falar sobre o outro pode ser uma excelente maneira de evitar falar de mim. Enquanto o outro permanece no banco dos réus, eu permaneço protegido atrás da toga.

A psicanálise, entretanto, retira lentamente essa toga. E pergunta: “E você? O que essa história tem a ver com você?” Essa pergunta não é confortável. Ela me obriga a abandonar, ainda que por alguns instantes, a posição daquele que observa, avalia e condena, para ocupar o lugar daquele que também precisa ser interrogado.

Talvez a verdadeira maturidade psíquica não esteja em deixar de perceber os defeitos dos outros, mas em desenvolver coragem para investigar por que alguns deles me atingem tão profundamente. Porque julgar o outro é, muitas vezes, uma tarefa relativamente simples. Difícil é suportar o encontro com aquilo que o outro revelou sobre mim. E talvez seja justamente aí que o julgamento termina. E começa a análise.

Porto Seguro, Bahia, 14 de junho de 2020.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 10/09/2026
Alterado em 14/09/2026