DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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SEMPRE ACHAMOS QUE TEMOS MAIS TEMPO

Sempre achamos que temos mais tempo. E aí o tempo se acaba. Talvez uma das maiores ficções produzidas pelo psiquismo humano seja a ideia de que ainda há tempo. Não necessariamente porque acreditamos conscientemente que somos imortais, mas porque organizamos nossa existência como se a morte fosse sempre um acontecimento posterior. Sabemos que morreremos, mas raramente vivemos como quem sabe.

A morte é uma certeza intelectual que o inconsciente insiste em tratar como possibilidade. É por isso que adiamos. Adiar é, muitas vezes, uma maneira sofisticada de negar a finitude. “Depois eu digo.” “Depois eu volto.” “Depois eu peço perdão.” “Depois eu começo.” “Depois eu mudo.” “Depois eu amo.”

O problema é que o “depois” possui uma característica assustadora: ele nunca está presente. O presente é o único lugar onde a vida acontece. O passado já não pode ser vivido; o futuro ainda não pode ser vivido. Entretanto, o sujeito frequentemente passa a existência inteira dividido entre aquilo que perdeu e aquilo que espera encontrar. E, nesse intervalo, a vida passa.

Freud nos ensinou que o psiquismo não é senhor absoluto de si mesmo. Há desejos, conflitos, recalques e repetições que escapam à consciência.

Lacan radicalizaria essa compreensão ao mostrar que o desejo humano não se satisfaz simplesmente com a posse de um objeto; ele se estrutura em torno de uma falta. Talvez seja por isso que esperamos tanto. Esperamos ter mais dinheiro para começar. Mais coragem para falar. Mais segurança para mudar. Mais tempo para amar. Mais maturidade para perdoar. Mais estabilidade para viver.

E, quando finalmente pensamos estar preparados, descobrimos que o tempo não esperou nossa preparação. A vida não nos pergunta se estamos prontos. Ela simplesmente acontece.

Kierkegaard compreendeu que existir é estar diante da possibilidade. Heidegger nos colocou diante do ser-para-a-morte. A filosofia existencial percebeu aquilo que a consciência cotidiana tenta esquecer: somos seres lançados no tempo, e nossa existência é inseparável da possibilidade de deixar de existir.

Mas a Bíblia já havia dito isso de maneira ainda mais desconcertante: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos corações sábios.” — Salmo 90:12 - Observe que o salmista não pede: “Senhor, dê-nos mais dias”. Ele pede: “Ensina-nos a contar.” Porque não basta possuir tempo. É necessário saber o que fazer com ele.

O problema não é simplesmente a quantidade de dias, mas a qualidade da existência dentro deles. Podemos viver oitenta anos e permanecer emocionalmente presos ao passado. Podemos viver cinquenta anos e nunca ter realmente escolhido nossa própria vida. Podemos ter vinte anos e já viver como quem desistiu.

O calendário mede o tempo cronológico. Mas não mede a existência. Há pessoas que envelhecem sem amadurecer. Há pessoas que vivem muito sem jamais terem habitado verdadeiramente a própria vida. E talvez seja essa uma das tragédias mais silenciosas da existência humana: morrer sem nunca ter vivido aquilo que se desejava viver.

Jesus contou uma parábola sobre um homem rico que havia acumulado tantos bens que já não sabia onde guardá-los. Então decidiu construir celeiros maiores. Seu projeto era simples: acumular hoje, descansar amanhã, viver depois. Ele disse à própria alma: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.”

Há algo profundamente psicológico nessa fala. Ele conversa com a própria alma como se tivesse comprado o futuro. Mas Deus responde: “Louco, esta noite te pedirão a tua alma.” — Lucas 12:20

A tragédia daquele homem não estava em possuir riquezas. Estava em acreditar que possuía o tempo. Ele tinha patrimônio, mas não tinha o amanhã. Tinha celeiros cheios, mas a vida estava vazia de garantia. Essa parábola desmonta uma das maiores ilusões humanas: confundimos aquilo que podemos controlar com aquilo que nos pertence. Podemos planejar o amanhã. Não podemos possuí-lo. Podemos preparar o futuro. Não podemos assegurá-lo. Podemos cuidar da vida. Não podemos determinar sua duração. Talvez por isso a ansiedade seja tão característica do homem moderno. A mente tenta antecipar aquilo que ainda não aconteceu. O sujeito vive hoje tentando controlar o amanhã. E, paradoxalmente, enquanto tenta controlar o futuro, perde o presente.

A ansiedade diz: “E se...?” A culpa diz: “Se eu tivesse...” O desejo diz: “Quando eu conseguir...” E a vida responde silenciosamente: “Agora.”

O inconsciente frequentemente prefere um futuro imaginado a um presente que exige decisão. Porque imaginar não compromete. Desejar não necessariamente transforma. Planejar pode ser uma maneira de adiar. Há pessoas que passam anos planejando começar a viver.

E essa talvez seja uma das formas mais elegantes de perder a própria existência. A Bíblia possui uma palavra ainda mais radical: “Eis, agora, o tempo sobremodo oportuno; eis, agora, o dia da salvação.” — 2 Coríntios 6:2

Agora. Não amanhã. Não quando tudo estiver resolvido. Não quando você finalmente se tornar aquilo que imagina que deveria ser. Agora. O presente é o lugar da decisão. O lugar do arrependimento. O lugar do amor. O lugar da reconciliação. O lugar onde a graça encontra o pecador. O passado pode ensinar, mas não pode ser alterado.

O futuro pode orientar, mas não pode ser vivido antecipadamente. Somente o presente pode ser oferecido a Deus. Talvez seja por isso que Jesus diga: “Basta a cada dia o seu próprio mal.” — Mateus 6:34

Não é um convite à irresponsabilidade. É uma libertação da pretensão de controlar o amanhã. Há uma sabedoria espiritual em aceitar que somos criaturas e não soberanos. Deus é eterno. Nós somos temporais. Deus conhece o amanhã. Nós recebemos apenas o hoje. E talvez grande parte do sofrimento humano nasça justamente da dificuldade de aceitar essa diferença.

Queremos a onisciência de Deus, mas recebemos a experiência limitada do tempo. Queremos garantias, mas recebemos possibilidades. Queremos controlar a vida, mas recebemos a responsabilidade de vivê-la. “Sempre achamos que temos mais tempo.” Essa frase talvez seja menos sobre o relógio e mais sobre o desejo. Desejamos que o tempo espere. Que as pessoas esperem. Que a juventude espere. Que a saúde espere. Que as oportunidades esperem. Que o amor espere. Mas nada disso foi prometido. O tempo não negocia. Ele passa sobre os nossos projetos, atravessa nossos planos, modifica nossos corpos, leva pessoas que amamos e, finalmente, leva também a nós.

E um dia descobriremos que o último dia não veio acompanhado de um aviso. Não houve necessariamente uma última conversa anunciada como última. Nem sempre sabemos que aquele abraço era o último. Que aquela fotografia seria a última. Que aquela manhã seria a última. Que aquela despedida não teria retorno. A vida termina muitas vezes sem nos informar que está terminando.

É por isso que a finitude não deveria produzir apenas medo. Ela deveria produzir presença. Heidegger chamou a existência humana de um ser-para-a-morte. A Bíblia poderia dizer de outra maneira: somos criaturas diante da eternidade. E essa consciência deveria mudar nossa maneira de viver. Se eu sei que o tempo é limitado, então preciso perguntar: O que realmente importa?Quem precisa ouvir que eu o amo? Quem precisa receber meu perdão? Que ferida ainda estou alimentando? Que orgulho ainda estou defendendo? Que sonho estou adiando? Que chamado estou ignorando? Que relação estou destruindo enquanto espero o momento certo para consertá-la? Porque talvez o verdadeiro desperdício não seja morrer cedo. Talvez seja viver tarde demais. No fim, a sabedoria não está em possuir mais tempo. Está em reconhecer o valor do tempo que recebemos. O Salmo 90 termina pedindo: “Confirma sobre nós as obras das nossas mãos.” É como se dissesse: “Senhor, já que nossos dias são breves, faça com que aquilo que fazemos tenha significado.”

Não precisamos viver como quem tenta escapar da morte. Precisamos viver como quem sabe que a morte existe. Não precisamos transformar cada dia em uma corrida desesperada. Precisamos apenas parar de tratar a vida como se fosse infinitamente adiável. Porque um dia o relógio continuará funcionando. O mundo continuará girando. As pessoas continuarão falando. O sol continuará nascendo. Mas, para nós, o tempo terá terminado. E então talvez descubramos a verdade que sempre esteve diante de nossos olhos: não era que tínhamos pouco tempo. É que sempre imaginamos que tínhamos mais. E aí... o tempo se acaba.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 31/08/2026
Alterado em 31/08/2026