DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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A CONTA NÃO FECHA

Eu não quero ser credor de nenhuma dor que me deram.

“Ah, me machucaram um pouquinho!”

Mas eu já feri alguém quase até a morte.

E mesmo quando fui remédio, não consegui devolver a pele sem deixar cicatriz.

Por isso, a conta nunca fecha.

Então eu vou me despojando, despejando pelo caminho uma ou outra tonelada dos fardos que carrego e que, na verdade, nunca foram inteiramente meus.

Literalmente, tudo o que está além de mim precisa encontrar um lugar onde eu não esteja.

Não tenho orgulho dos meus monstros.

Vergonha? Também não.

Há coisas em mim que não reconheço o suficiente para odiá-las ou amá-las.

Sou-me tão alheio que até a culpa parece vestir em mim uma roupa de outro homem.

“Desajustado.”

Gosto desse som.

Talvez porque há alguma liberdade em não caber onde nunca fui feito para caber.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 28/08/2026
Alterado em 31/08/2026