DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

UM DIA DE CADA VEZ

Entre a ansiedade do amanhã e a cura do presente.

“Não andeis ansiosos pelo dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados.” — Mateus 6.34

Há uma espécie de sofrimento humano que nasce antes mesmo que o acontecimento exista. A pessoa sofre pelo que ainda não aconteceu, constrói mentalmente cenários que talvez jamais se realizem e, paradoxalmente, abandona o único tempo sobre o qual possui alguma possibilidade de ação: o presente.

Jesus, ao dizer “não andeis ansiosos pelo dia de amanhã”, não está propondo uma existência irresponsável, desprovida de planejamento ou de prudência. Ele está tocando numa questão profundamente humana: a tentativa de controlar, pela antecipação, aquilo que pertence ao território da incerteza.

A ansiedade frequentemente transforma o futuro em uma espécie de palco imaginário onde representamos tragédias que talvez nunca aconteçam.

Pensamos: E se acontecer? E se eu perder? E se der errado? E se aquela pessoa me abandonar? E se eu adoecer? E se eu não conseguir? E se amanhã for pior?

E assim, tentando evitar o sofrimento de amanhã, começamos a sofrer hoje.

O FUTURO NÃO EXISTE COMO EXPERIÊNCIA

Filosoficamente, existe algo desconcertante no tempo: o passado já não existe como acontecimento presente; o futuro ainda não existe; e o presente, quando tentamos capturá-lo, imediatamente se transforma em passado.

Entretanto, é justamente no presente que nossa existência acontece.

O passado pode ser lembrado. O futuro pode ser imaginado. Mas somente o presente pode ser vivido.

Por isso, uma das formas mais importantes de diminuir a ansiedade é devolver a mente ao lugar onde a vida efetivamente está acontecendo.

Hoje.

Não amanhã.

Hoje.

É hoje que você pode pedir perdão.

É hoje que pode começar a mudar.

É hoje que pode fazer aquilo que vem adiando.

É hoje que pode tratar alguém com mais ternura.

É hoje que pode controlar a própria agressividade.

É hoje que pode deixar de tentar controlar tudo e todos.

É hoje que pode falar mais baixo.

É hoje que pode escutar melhor.

É hoje que pode ser menos autoritário e mais sereno.

O amanhã não está sob nosso domínio. O hoje, pelo menos em alguma medida, está.

A ANSIEDADE TAMBÉM PODE SER UMA FUGA DE SI

Existe ainda uma dimensão psicanalítica nessa questão.

Às vezes, preocupar-se excessivamente com o futuro é uma maneira sofisticada de não olhar para o presente.

Enquanto minha mente está ocupada imaginando o que poderá acontecer amanhã, não preciso perguntar o que está acontecendo dentro de mim hoje.

É mais fácil pensar:

“E se tudo der errado?”

do que perguntar:

“Por que tenho tanta necessidade de controlar?”

É mais confortável pensar:

“Será que aquela pessoa vai me abandonar?”

do que perguntar:

“Por que preciso tanto da garantia de que alguém permanecerá?”

É mais fácil preocupar-se com o comportamento dos outros do que examinar o próprio comportamento.

Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que alguém possa fazer diariamente seja:

“O que, em mim, precisa amadurecer?”

Talvez seja a necessidade de aprovação.

Talvez seja a agressividade.

Talvez seja a preguiça.

Talvez seja o autoritarismo.

Talvez seja a dificuldade de demonstrar afeto.

Talvez seja a incapacidade de ouvir.

Talvez seja a necessidade de controlar.

Talvez seja a intolerância diante das diferenças.

Talvez seja simplesmente a dificuldade de descansar.

O amadurecimento emocional não acontece de uma vez.

Não existe uma manhã em que acordamos completamente resolvidos.

Somos seres em processo.

MUDAR NÃO É DESTRUIR QUEM SOMOS

Uma das grandes ilusões humanas é imaginar que precisamos nos transformar completamente para começar a viver melhor.

Não.

Às vezes, precisamos começar por uma pequena decisão.

Se você é autoritário, tente hoje ser um pouco mais sereno.

Se costuma responder agressivamente, experimente hoje fazer uma pausa antes de responder.

Se tem dificuldade de demonstrar carinho, diga hoje aquilo que normalmente guarda.

Se vive se cobrando, permita-se hoje descansar sem transformar o descanso em culpa.

Se é controlador, experimente hoje aceitar que algumas coisas podem acontecer sem a sua interferência.

Não é necessário vencer todas as batalhas psicológicas em um único dia.

Uma mudança de cada vez.

A maturidade é construída assim.

Uma decisão consciente repetida muitas vezes transforma-se em hábito; e hábitos repetidos começam, pouco a pouco, a modificar a maneira como nos relacionamos conosco, com os outros e com a própria existência.

NÃO ESPERE A SEGUNDA-FEIRA PARA COMEÇAR A VIVER

Existe uma curiosa tendência humana de transferir a mudança para uma data simbólica.

“Na segunda-feira eu começo.”

“No próximo mês.”

“Quando chegar meu aniversário.”

“No Ano Novo.”

“Quando as coisas melhorarem.”

“Quando eu tiver dinheiro.”

“Quando eu estiver menos ocupado.”

Mas a vida não acontece nas datas que imaginamos.

A vida acontece agora.

O presente não precisa ser perfeito para ser vivido.

Se você está muito ocupado, encontre hoje alguns minutos para respirar.

Caminhe.

Observe uma árvore.

Veja um jardim.

Converse com alguém de quem gosta.

Telefone para um amigo.

Convide alguém para tomar um café.

Visite um lugar diferente.

Leia algumas páginas de um livro.

Faça alguma coisa que você vem adiando.

Permita-se, inclusive, pequenos prazeres que estejam dentro das suas possibilidades.

Não estou falando de uma filosofia inconsequente de “aproveitar a vida” entregando-se a excessos e comportamentos destrutivos.

Estou falando de habitar a própria vida com mais consciência.

Menos compulsão.

Mais presença.

Menos excesso.

Mais significado.

Menos shopping para preencher vazios.

Mais natureza para encontrar silêncio.

O PASSADO NÃO PRECISA SER UMA SENTENÇA

Existe também o problema inverso.

Se a ansiedade faz algumas pessoas viverem no futuro, a culpa faz outras viverem no passado.

A pessoa olha para trás e diz:

“Como eu fui capaz de fazer aquilo?”

“Por que não me defendi?”

“Por que aceitei aquilo?”

“Por que não percebi antes?”

“Por que tomei aquela decisão?”

“Como pude ser tão ingênuo?”

Essa pessoa está julgando o passado com a consciência que adquiriu depois que o passado aconteceu.

E isso é profundamente injusto consigo mesma.

Você sabe hoje coisas que não sabia naquela época.

Você possui hoje experiências que não possuía naquele momento.

Sua consciência mudou.

Sua percepção amadureceu.

Sua capacidade de compreender determinadas situações foi construída também a partir dos erros que cometeu.

Isso não significa justificar o erro.

Significa compreendê-lo.

Existe uma diferença enorme entre arrependimento e autopunição.

O arrependimento pode produzir transformação.

A autopunição frequentemente apenas mantém o sujeito aprisionado à própria culpa.

Se você feriu alguém, peça perdão.

Se deve algo, procure pagar.

Se precisa reparar, repare.

Se é possível corrigir uma consequência, corrija.

Mas depois disso, não transforme o seu erro em uma identidade.

Você cometeu um erro; você não é necessariamente o seu erro.

JESUS E A MULHER ADÚLTERA

É aqui que a narrativa de João 8 se torna profundamente significativa.

Uma mulher é colocada diante de Jesus sob a acusação de adultério. Os homens que a cercam não estão interessados apenas na justiça. Existe também naquela cena a tentativa de transformar uma pessoa em objeto de exposição, julgamento e condenação.

Jesus não participa daquela lógica.

Ele não transforma o pecado daquela mulher em espetáculo.

Não a humilha.

Não a reduz ao seu passado.

E também não banaliza o pecado.

Depois que os acusadores se afastam, Jesus lhe diz:

“Vai e não peques mais.”

Essa frase é extraordinária porque contém duas coisas simultaneamente: graça e responsabilidade.

Jesus não diz:

“Você não fez nada.”

Mas também não diz:

“Você será para sempre aquilo que fez.”

Existe uma diferença entre reconhecer o pecado e transformar o pecador em seu pecado.

Aquela mulher precisava de uma nova possibilidade de existência.

E talvez seja exatamente isso que muitas pessoas precisam quando olham para a própria história.

Não precisam negar o passado.

Precisam deixar de ser governadas por ele.

ENTRE A CULPA E A GRAÇA

A psicanálise pode nos ajudar a compreender como a culpa pode tornar-se uma forma de aprisionamento psíquico.

Há pessoas que continuam se castigando anos depois de terem cometido determinado erro.

Pedem perdão, mas não conseguem se perdoar.

Mudam de comportamento, mas continuam se odiando.

Reparam o dano, mas permanecem emocionalmente condenadas.

É como se precisassem continuar sofrendo para provar a si mesmas que reconheceram o erro.

Mas sofrimento não é sinônimo de transformação.

Há uma culpa que conduz à responsabilidade e outra que conduz à autodestruição.

A primeira pergunta:

“O que posso fazer diferente agora?”

A segunda pergunta apenas:

“Como posso continuar me castigando pelo que fiz?”

A primeira abre o futuro.

A segunda mantém a pessoa presa ao passado.

Por isso, a graça não significa negar a responsabilidade.

A graça significa que o erro não precisa ser a última palavra sobre a existência.

O PRESENTE COMO LUGAR DA TRANSFORMAÇÃO

Talvez seja essa a grande sabedoria contida na advertência de Jesus sobre o amanhã.

Não precisamos viver antecipadamente todos os problemas que ainda não existem.

E também não precisamos continuar pagando eternamente pelos erros que já aconteceram.

Entre o passado que não podemos modificar e o futuro que ainda não podemos controlar, existe um território extraordinariamente precioso:

o presente.

É nele que podemos agir.

É nele que podemos reparar.

É nele que podemos amar.

É nele que podemos mudar.

É nele que podemos pedir perdão.

É nele que podemos descansar.

É nele que podemos começar novamente.

O passado pode ensinar, mas não precisa governar.

O futuro pode orientar, mas não precisa dominar.

O presente é o lugar onde a transformação acontece.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para hoje não seja:

“Como será minha vida amanhã?”

Nem:

“Por que minha vida foi assim ontem?”

Talvez seja simplesmente:

“O que posso fazer hoje para ser um pouco mais maduro do que fui ontem?”

Não precisa ser uma grande mudança.

Pode ser pequena.

Mas consciente.

Porque a vida não muda apenas nos grandes acontecimentos.

Ela muda nas pequenas decisões que repetimos todos os dias.

E talvez seja justamente isso que Jesus esteja nos ensinando:

não carregue hoje o peso de um amanhã que ainda não chegou.

Viva o dia que lhe foi dado.

Faça o que precisa ser feito.

Corrija o que puder ser corrigido.

Perdoe o que puder ser perdoado.

Repare aquilo que puder ser reparado.

Ame enquanto pode amar.

Descanse quando precisar descansar.

E, sobretudo, não adie para amanhã a pessoa que você já pode começar a ser hoje.

Um dia de cada vez.

Uma decisão de cada vez.

Uma mudança de cada vez.

Porque o amanhã pertence ao tempo.

Mas a transformação começa sempre no presente.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 14/08/2026