“TALVEZ EU NEM EXISTA NESSE FUTURO QUE ME COBRO TANTO”
Há em nós um estranho e melancólico hábito: o de hipotecarmos a vida ao amanhã. Somos pródigos em sacrificar o presente no altar de um futuro que não conhecemos, e ascetas em renunciar às alegrias possíveis de hoje para pagar tributo às exigências de um tempo que talvez jamais venha a existir para nós.
É curioso que o homem, sendo tão pequeno diante da eternidade, pretenda ser tão grande diante do tempo. Faz planos para décadas quando não lhe pertence sequer o próximo minuto. Conta os frutos antes das estações, constrói palácios sobre as névoas do porvir e, não raro, sepulta-se vivo sob os escombros das próprias expectativas.
"Talvez eu nem exista nesse futuro que eu me cobro tanto." Não há derrotismo nesta sentença, mas sabedoria. Não é a voz da desistência que nela ecoa, mas a da humildade. É o reconhecimento de que somos pó suficientemente consciente para sonhar, mas demasiadamente frágeis para governar o próprio amanhã.
A ansiedade é, talvez, uma das mais refinadas formas de arrogância humana. Ela nos faz acreditar que o universo depende de nossa vigilância permanente, como se o futuro fosse um edifício sustentado por nossas preocupações. Sofremos por tragédias que jamais acontecerão, choramos fracassos ainda não vividos e carregamos culpas que pertencem apenas às nossas imaginações.
Tornamo-nos credores de nós mesmos. Exigimo-nos aquilo que não exigiríamos dos que amamos. Somos indulgentes com as misérias alheias e impiedosos com as nossas limitações. Cobramo-nos sucesso quando precisamos de descanso; produtividade quando necessitamos de silêncio; grandeza quando Deus, por vezes, deseja apenas que aprendamos a ser pequenos.
A psique humana não foi concebida para habitar simultaneamente todos os tempos. Há um preço demasiadamente alto em morar no amanhã: deixamos o presente vazio de nossa presença. O corpo permanece aqui, mas a alma parte em direção aos dias que ainda não nasceram. Vivemos, então, como estrangeiros do único lugar onde a vida efetivamente acontece: o agora.
Talvez por isso as Escrituras sejam tão insistentes em nos devolver ao presente. Nosso Senhor não disse: "Carregai sobre vós as aflições dos próximos vinte anos." Antes, ordenou-nos amorosamente: "Não vos inquieteis pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal" (Mateus 6.34). Não é uma proibição ao planejamento; é uma libertação da escravidão da ansiedade. Há uma diferença abissal entre planejar o amanhã e viver acorrentado a ele. O primeiro é um ato de prudência; o segundo, uma confissão involuntária de incredulidade. Planejar é um exercício humano. Controlar o futuro é uma pretensão divina.
Tiago, em sua sobriedade desconcertante, recorda-nos aquilo que nossa soberba insiste em esquecer: "Que é a vossa vida? Sois apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa" (Tiago 4.14). Somos neblina escrevendo projetos sobre as pedras do tempo. Somos peregrinos construindo tendas ao longo do caminho, jamais proprietários da estrada.
Talvez o maior engano do homem moderno não seja amar demasiadamente o futuro, mas desprezar silenciosamente o presente. Esperamos pelo dia em que seremos felizes, esquecendo-nos de que a felicidade raramente se apresenta em datas marcadas. Ela costuma chegar sem cerimônias: no café partilhado, no abraço inesperado, na oração silenciosa, no pôr do sol que ninguém fotografou.
Quem vive apenas para chegar morre sem jamais ter partido. E se esse futuro tão exigente nunca me encontrar? E se minhas cobranças sobreviverem a mim? Quantas lágrimas terão sido derramadas inutilmente? Quantos abraços terão sido adiados? Quantos "eu te amo" permanecerão aprisionados em meus lábios por haver sempre um amanhã mais urgente do que o hoje?
Salomão, o homem que conheceu os excessos da sabedoria e das vaidades humanas, concluiu que tudo é vaidade e correr atrás do vento. Talvez porque tenha compreendido, no ocaso da existência, aquilo que levamos toda uma vida para aprender: o tempo não nos pertence; nós é que pertencemos ao tempo que Deus nos concede.
Não sabemos se existiremos amanhã. Ignoramos quantos amanheceres ainda nos serão concedidos. Contudo, sabemos quem já habita todos eles. O Deus que me sustenta hoje é o mesmo que me aguardará no amanhã, caso me seja dado alcançá-lo. Por isso, minha segurança não repousa na existência do futuro, mas na fidelidade daquele que o governa.
Se amanhã eu existir, que me encontre vivendo. Se amanhã eu não existir, que hoje me tenha encontrado em paz. Aprendi, ainda que tardiamente, que não preciso ser suficiente para todos os meus futuros. Basta-me ser fiel ao dia que Deus colocou diante dos meus olhos. O pão que me prometeu é diário, a graça que me concede é diária e Sua misericórdia também se renova a cada manhã.
Talvez eu nem exista nesse futuro que tanto me cobra. Mas existo agora. E isso basta. O amanhã pertence a Deus. O hoje, porém, foi-me confiado como um sacramento do tempo, breve como a neblina, precioso como a graça e suficiente como o amor do Pai.
E talvez seja este o mais belo e humilde dos aprendizados humanos: descansar no fato de que não preciso carregar o futuro nos ombros, porque ele jamais esteve em minhas mãos.