INTELIGÊNCIA EMOCIONAL: UMA LEITURA PSICANALÍTICA, FILOSÓFICA E BÍBLICA.
"Examina-te a ti mesmo." (cf. 2 Coríntios 13:5)
"Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas..." (1 Timóteo 4:16)
"Conhece-te a ti mesmo." (Máxima inscrita no Templo de Apolo, em Delfos, posteriormente adotada e desenvolvida por Sócrates.)
A Inteligência Emocional não é uma descoberta exclusiva da psicologia moderna. Seus fundamentos podem ser encontrados na filosofia grega, na revelação bíblica e, mais recentemente, na psicanálise. O homem sempre procurou responder às perguntas fundamentais da existência: Quem sou eu? Por que sinto o que sinto? Como devo viver? Como me relacionar com os outros?
O "Conhece-te a ti mesmo" atravessa os séculos como um imperativo antropológico. Sócrates transformou essa máxima no centro de sua filosofia, entendendo que uma vida não examinada não merece ser vivida. Séculos antes da psicologia científica, os filósofos já compreendiam que o maior desafio humano não era conquistar o mundo exterior, mas ordenar o mundo interior.
Curiosamente, o apóstolo Paulo apresenta a Timóteo um princípio semelhante ao exortá-lo: "Tem cuidado de ti mesmo..." (1 Tm 4:16). Antes de cuidar da igreja, da doutrina e do próximo, Timóteo deveria aprender a cuidar da própria alma. O ministério começa no interior do homem.
1. CONSCIÊNCIA DE SI MESMO – AUTOCONSCIÊNCIA.
Para a psicanálise, o autoconhecimento é o primeiro grande passo do amadurecimento humano. Freud afirmou que "o eu não é senhor em sua própria casa", revelando que grande parte do que somos permanece oculta no inconsciente.
Sócrates dizia que o homem ignorante é aquele que desconhece a si próprio. Platão entendia que a alma possui diferentes inclinações que precisam ser harmonizadas pela razão. Aristóteles ensinava que a virtude nasce do conhecimento de si e da prática deliberada do bem.
Paulo, escrevendo aos coríntios, afirma: "Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos..." (2 Co 13:5).
O exame da consciência é um princípio tanto filosófico quanto bíblico. O homem espiritual é aquele que desenvolve a capacidade de perceber seus afetos, suas inclinações pecaminosas, suas virtudes e suas limitações.
Não existe crescimento emocional sem autoconhecimento.
2. ADMINISTRAR AS EMOÇÕES – AUTOCONTROLE.
Os filósofos estoicos, especialmente Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, ensinavam que o homem sábio não é governado pelas circunstâncias, mas pela sua capacidade de governar a si mesmo.
Sêneca escreveu: "O maior império é o império sobre si mesmo."
Na Bíblia, encontramos o mesmo princípio: "Melhor é o longânimo do que o valente, e o que governa o seu espírito do que o que toma uma cidade." (Pv 16:32).
O fruto do Espírito descrito por Paulo inclui o domínio próprio (Gl 5:22-23). Observe que o domínio próprio não é ausência de emoções, mas a capacidade de conduzi-las segundo princípios superiores.
A psicanálise nos ensina que emoções reprimidas não desaparecem; elas apenas encontram outras formas de expressão. Por isso, administrar as emoções não significa sufocá-las, mas compreendê-las, elaborá-las e integrá-las à personalidade.
O homem maduro não é aquele que não sente, mas aquele que sabe por que sente e escolhe como agir.
3. RECONHECER AS EMOÇÕES DOS OUTROS – EMPATIA.
Aristóteles afirmava que o homem é um ser político, isto é, um ser destinado à convivência. Não fomos criados para existir isoladamente.
O segundo grande mandamento dado por Cristo resume a inteligência emocional aplicada ao relacionamento humano: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Mt 22:39).
Observe a ordem do texto: Amar a si mesmo. Conhecer a si mesmo. Amar o próximo.
Quem não conhece suas próprias dores dificilmente compreenderá as dores alheias.A psicanálise demonstra que frequentemente projetamos nossos conflitos internos nos outros. Julgamos aquilo que ainda não resolvemos em nós mesmos. A empatia exige maturidade suficiente para reconhecer que o outro não é uma extensão da nossa história, mas alguém portador de uma história própria.
Jesus foi o maior exemplo de inteligência emocional da humanidade. Chorou diante do túmulo de Lázaro, indignou-se no Templo, demonstrou compaixão pelas multidões e, mesmo na cruz, orou por seus algozes.
Empatia não é sentimentalismo; é a capacidade de compreender sem necessariamente concordar.
4. ADMINISTRAR RELACIONAMENTOS – INTELIGÊNCIA SOCIAL.
Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio. O ser humano está em constante transformação. Consequentemente, nossos relacionamentos também exigem adaptação, sabedoria e humildade.
Paulo exorta: "Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens." (Rm 12:18).
Administrar relacionamentos é uma das maiores evidências de maturidade emocional. A maioria dos sofrimentos humanos nasce da incapacidade de lidar com pessoas, expectativas frustradas e conflitos não elaborados.
A psicanálise entende que repetimos, muitas vezes, padrões afetivos aprendidos na infância. Aquilo que não foi elaborado emocionalmente tende a reaparecer em nossos relacionamentos adultos.
Por isso, administrar relacionamentos implica: estabelecer limites saudáveis; desenvolver comunicação assertiva; aprender a perdoar; saber despedir-se quando necessário; cultivar vínculos nutritivos.
Nem toda relação deve ser mantida, mas toda relação pode nos ensinar algo sobre nós mesmos.
5. AUTOMOTIVAÇÃO – INCENTIVO PRÓPRIO.
Aristóteles ensinava que toda ação humana possui um fim último: a busca do bem e da felicidade (eudaimonia). A Bíblia, porém, amplia essa compreensão ao afirmar que o propósito último do homem é glorificar a Deus e desfrutar dEle eternamente.
Paulo escreveu: "Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus." (Fp 3:14)
A verdadeira motivação não nasce da aprovação dos homens, mas do conhecimento do propósito pelo qual fomos chamados.
Nietzsche dizia: "Quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como."
Embora não compartilhemos de todas as suas conclusões filosóficas, a afirmação possui profunda verdade existencial. O homem que possui propósito suporta melhor as dores do caminho.
A automotivação saudável é aquela que nasce de três pilares: identidade; propósito; significado.
Na linguagem bíblica, isso significa saber quem somos em Deus, para que fomos chamados e como devemos viver neste mundo.
CONCLUSÃO.
A Inteligência Emocional não é um modismo contemporâneo. Trata-se de um princípio tão antigo quanto a própria humanidade. Os gregos disseram: "Conhece-te a ti mesmo". Paulo disse: "Tem cuidado de ti mesmo". A psicanálise afirma: "Torna consciente aquilo que te governa". Cristo declarou: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo".
Todas essas vozes apontam para a mesma direção: o homem precisa voltar-se para dentro de si não para idolatrar o próprio ego, mas para ordenar a alma e submetê-la à verdade.
Conhecer-se é sabedoria. Governar-se é maturidade. Compreender o outro é amor. Relacionar-se bem é virtude. Viver com propósito é plenitude. A maior viagem do ser humano não é aquela que o conduz aos confins do universo, mas a que o leva ao mais profundo de sua própria alma, onde, ao conhecer-se verdadeiramente, descobre também a necessidade de conhecer o Deus que o criou.
Prado, Bahia, 10 de Maio 2017.