DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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A ILUSÃO DO RETORNO

Existe um tabu que a sociedade faz questão de preservar: a ideia de que ter filhos é, necessariamente, o maior investimento que alguém pode fazer. Discordo. Ter filhos pode ser o investimento mais arriscado de toda uma existência.

Você investe dinheiro, tempo, saúde, noites de sono, paciência, juventude e expectativas. Trabalha para oferecer oportunidades que você mesmo nunca teve. Renuncia aos próprios desejos para que eles realizem os deles. Mas, ao contrário de qualquer investimento financeiro, não há promessa de retorno. Ao final, você pode colher apenas silêncio, distância, indiferença ou desprezo.

O mais curioso é que essa realidade não escandaliza a Bíblia. Pelo contrário, ela a descreve com impressionante honestidade. Deus declara em Isaías 1:2: "Criei filhos e exalcei-os, mas eles prevaricaram contra mim." A dor da ingratidão não atingiu apenas pais comuns; atingiu o próprio Deus. O Pai perfeito formou filhos que escolheram a rebeldia.

As Escrituras repetem esse drama. Absalão tentou destruir o próprio pai, Davi. Eli viu seus filhos transformarem o sacerdócio em corrupção. Samuel assistiu seus filhos venderem a justiça por interesses pessoais. O apóstolo Paulo ainda advertiu que uma das marcas da decadência moral seria uma geração "desobediente aos pais" (2 Timóteo 3:2).

A cultura contemporânea agravou esse cenário. Ensina-se aos filhos que eles têm direitos ilimitados, enquanto os deveres para com aqueles que lhes deram a vida são tratados como opcionais. Confunde-se independência com ingratidão e autonomia com desprezo. Muitos pais envelhecem depois de uma vida inteira de renúncias apenas para descobrir que se tornaram um detalhe na agenda dos próprios filhos.

Talvez a grande tragédia da paternidade seja esta: ninguém consegue obrigar um filho a ser grato. Amor pode ser oferecido; gratidão, não. Sacrifício pode ser feito; reconhecimento, jamais exigido.

Isso não significa que ter filhos seja um erro. Significa que a paternidade é um ato de fé, não um investimento seguro. Quem gera um filho precisa entender que está entregando tudo a alguém que, no futuro, poderá retribuir com amor... ou com absoluto esquecimento.

A verdade é desconfortável, mas continua sendo verdade: poucos investimentos exigem tanto e oferecem tão poucas garantias quanto criar um filho. Talvez por isso a dor da ingratidão seja uma das mais profundas que um ser humano pode experimentar.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 02/07/2026
Alterado em 02/07/2026