O PESO DE ESCOLHER
É provável que muitos me condenem. Outros talvez me critiquem. Alguns, olhando apenas para os resultados, apontarão meus fracassos como evidência de que tomei os caminhos errados. E talvez tenham razão em parte. Afinal, quem atravessa a vida fazendo escolhas inevitavelmente coleciona erros, tropeços e arrependimentos.
Mas existe uma diferença fundamental entre cair caminhando por conta própria e permanecer de pé sobre um caminho escolhido pelos outros.
A psicologia nos ensina que a maturidade não consiste em acertar sempre, mas em assumir a autoria da própria existência. Há pessoas que passam a vida inteira obedecendo expectativas alheias: vivem os sonhos dos pais, os medos da sociedade, os desejos do grupo e as exigências da cultura. Tornam-se personagens secundários da própria história. Sofrem menos críticas, mas também experimentam menos liberdade.
Escolher é um ato de coragem porque toda escolha carrega consigo a possibilidade do erro. Quem decide abandona a segurança das certezas e entra no território das consequências. Não existe liberdade sem risco. O preço da autonomia é a responsabilidade.
Os filósofos existencialistas compreenderam isso profundamente. O ser humano está lançado no mundo e não pode fugir da tarefa de decidir. Mesmo quando se recusa a escolher, já escolheu: escolheu a omissão. Por isso, não há neutralidade na vida. Cada passo desenha um destino, cada renúncia constrói um caminho e cada decisão revela aquilo que somos.
Contudo, a questão não é apenas filosófica; ela é também espiritual. Desde as primeiras páginas das Escrituras, Deus apresenta ao homem a dignidade da escolha. O Criador poderia ter feito criaturas programadas para obedecer mecanicamente, mas preferiu criar seres capazes de agir, decidir e responder moralmente aos seus atos. Essa capacidade de escolha, que podemos chamar de livre agência, constitui uma das maiores responsabilidades entregues ao homem.
Após a Queda, a liberdade humana não desapareceu, mas tornou-se marcada pelas limitações da própria condição pecaminosa. O homem continua escolhendo, continua respondendo por seus atos e continua sendo chamado a posicionar-se diante de Deus. A responsabilidade permanece, mesmo quando a vontade já não desfruta da plenitude de liberdade que caracterizava a condição original.
Por isso, a Bíblia está repleta de pessoas que erraram por conta própria. Davi escolheu mal e sofreu as consequências. Pedro escolheu negar e chorou amargamente. Jonas escolheu fugir e encontrou a tempestade. Contudo, em todos esses casos, Deus trabalhou não apenas nos acertos, mas também nos erros. A graça divina não elimina a responsabilidade humana; ela redime aquilo que a responsabilidade, sozinha, não consegue reparar.
Talvez eu tenha falhado muitas vezes. Talvez meus fracassos sejam visíveis demais para quem observa de fora. Mas existe uma paz silenciosa em saber que minhas cicatrizes nasceram de escolhas que me pertencem. Não foram correntes impostas por terceiros. Foram marcas adquiridas na travessia da minha própria jornada.
No final das contas, não seremos lembrados apenas pelos lugares aonde chegamos, mas também pela coragem que tivemos de caminhar. E entre o sucesso obtido pela submissão e o fracasso encontrado na liberdade, há algo profundamente humano e espiritualmente honesto em poder dizer: "Errei muitas vezes, fracassei em diversos momentos, mas nunca entreguei a outros o direito de viver a minha vida por mim." Porque uma existência autêntica pode carregar derrotas, mas nunca carregará o vazio de ter sido vivida por procuração.
Jeovan Rangel