DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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OS POÇOS DA VIDA

Outro dia me lembrei de uma brincadeira da minha infância chamada "Cair no Poço".

Alguém dizia:

— Cai no poço! Quem me tira? Eu, fulano de tal.

E logo vinha a pergunta:

— Com quê?

Então surgia a resposta:

— Com um beijo!— Com um abraço!— Com um aperto de mão!

Era uma brincadeira simples, dessas que parecem insignificantes enquanto acontecem, mas que, anos depois, retornam carregadas de significado.

A memória tem dessas coisas. Às vezes ela desenterra uma cena aparentemente banal apenas para nos ensinar algo que não éramos capazes de compreender quando crianças.

Pensando nisso, percebi que a vida inteira parece uma sucessão de poços.

Mais cedo ou mais tarde, todos nós caímos em algum deles.

Alguns são rasos. Outros parecem não ter fundo.

Há quem caia por distração. Há quem ignore as placas de aviso que a vida coloca pelo caminho. Há quem seja empurrado pela imprudência das próprias escolhas. Mas existem também aqueles que são lançados no fundo por mãos alheias, vítimas da inveja, da maldade ou da traição.

José conheceu esse tipo de poço.

Seus próprios irmãos o lançaram numa cisterna vazia. O buraco não foi consequência de um erro seu. Foi o resultado do ódio daqueles que não suportavam seus sonhos. E talvez uma das dores mais profundas da existência seja justamente essa: descobrir que algumas das pessoas que mais nos ferem são aquelas de quem esperávamos proteção.

Mas José não foi o único.

Jeremias também experimentou um poço. Foi jogado numa cisterna cheia de lama porque suas palavras incomodavam. Afundou não por ser mentiroso, mas por dizer a verdade.

Jonas encontrou seu poço nas profundezas do mar. Tentou fugir de sua responsabilidade e acabou engolido por um grande peixe. Às vezes, nossos poços nascem das escolhas que fazemos para evitar aquilo que sabemos que precisamos enfrentar.

Até Davi conheceu seus abismos. Perseguido por Saul, viveu escondido em cavernas, isolado e ameaçado de morte. Nem sempre o poço tem paredes de pedra. Às vezes ele é feito de medo, solidão e incerteza.

E quem nunca habitou um poço emocional?

O luto é um poço.

A rejeição é um poço.

A falência de um sonho é um poço.

A traição de alguém amado é um poço.

A depressão, talvez, seja um dos mais escuros de todos.

O curioso é que, quando estamos no fundo, descobrimos uma verdade pouco agradável sobre as relações humanas: a maioria das pessoas não gosta de se aproximar dos buracos.

Enquanto estamos sorrindo, somos companhia desejada.

Enquanto estamos vencendo, recebemos aplausos.

Mas quando estamos caídos, muitos atravessam a rua para não precisar olhar.

Não é necessariamente maldade. Muitas vezes é medo.

A dor dos outros nos lembra que também somos frágeis.

Por isso, quem está no poço frequentemente experimenta o abandono.

Os telefonemas diminuem.

As visitas desaparecem.

As promessas evaporam.

E o silêncio passa a ocupar lugares antes preenchidos por vozes.

Contudo, existe algo extraordinário nos poços da vida.

Eles revelam.

Revelam quem permanece quando todos os outros vão embora.

Revelam nossa verdadeira força.

Revelam nossos limites.

Revelam o que realmente importa.

No fundo do poço, as máscaras perdem a utilidade. Os títulos perdem o valor. As aparências deixam de impressionar. Ali resta apenas o ser humano diante de si mesmo.

Talvez seja por isso que Deus tenha o estranho costume de visitar pessoas nos lugares mais profundos.

José encontrou seu destino depois do poço.

Jeremias recebeu livramento no poço.

Jonas reencontrou sua missão depois do poço.

Davi escreveu alguns de seus mais belos salmos em seus períodos de escuridão.

E Jesus transformou um sepulcro — o mais definitivo dos poços — em porta de ressurreição.

A fé não nos promete uma vida sem buracos.

Promete algo maior.

Promete que nenhum deles será nossa morada definitiva.

Com o passar dos anos, aprendi que a pergunta mais importante não é se vamos cair.

Porque, de uma forma ou de outra, todos cairemos.

A verdadeira questão é o que faremos quando estivermos lá.

Se transformaremos o poço em túmulo ou em escola.

Se permitiremos que a dor nos destrua ou nos amadureça.

Se permaneceremos olhando para baixo ou aprenderemos a procurar uma saída olhando para cima.

Hoje, quando me lembro daquela velha brincadeira de infância, sinto vontade de reformular a pergunta.

A vida diz:

— Caiu no poço!

E eu respondo: quem me tira?

— E com quê?

Talvez com uma lição.

Talvez com uma mudança.

Talvez com um recomeço.

Porque os poços da vida não existem apenas para nos fazer sofrer.

Às vezes, eles existem para nos ensinar a subir.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 21/06/2026
Alterado em 21/06/2026