DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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QUANDO DESEJO IGNORA O LIMITE.

Uma crônica sobre o desejo, o limite e a queda.

Maria Eduarda sonhava alto. Como tantas meninas de sua idade, carregava no peito a inquietação de quem acredita que o horizonte está sempre um pouco além do lugar onde os pés tocam o chão. Havia nela a sede da descoberta, a atração pelo novo, o impulso de experimentar aquilo que parece reservado aos corajosos. Sonhar, afinal, é uma das formas mais belas da juventude.

Mas existe uma diferença fundamental entre sonhar e desafiar os limites da própria condição humana. Seu último voo não a conduziu a novas paisagens, nem a conquistas, nem a histórias para contar. Conduziu-a à morte. Um voo que jamais deveria ter acontecido. Um voo que transformou a promessa de liberdade em tragédia.

Vivemos numa época em que o risco é frequentemente vendido como espetáculo. A prudência tornou-se enfadonha, enquanto a adrenalina ganhou status de virtude. As redes sociais transformaram a ousadia em moeda simbólica. Quanto maior o perigo, maior a possibilidade de reconhecimento. Quanto mais próximo da morte, mais intensa parece ser a ilusão de estar verdadeiramente vivo.

A psicanálise talvez nos ajude a compreender esse fenômeno. Freud identificou, ao lado dos impulsos voltados para a preservação da vida, uma força paradoxal que chamou de pulsão de morte: uma tendência inconsciente que conduz o sujeito à repetição de experiências perigosas, à transgressão dos limites e, em certos casos, à própria autodestruição. Não se trata de um desejo consciente de morrer, mas de uma fascinação pelo limite extremo, pelo lugar onde a vida toca o abismo.

Talvez Maria Eduarda não quisesse morrer. Muito provavelmente queria viver intensamente. Queria sentir a vertigem da altura, a sensação de poder sobre o medo, a ilusão de que o corpo pudesse, por alguns instantes, desafiar a gravidade. O problema é que a realidade não negocia com fantasias. A natureza não suspende suas leis porque alguém deseja experimentar emoções mais intensas.

Mas a responsabilidade não repousa apenas sobre seus ombros. Toda tragédia humana é quase sempre coletiva. Há os erros individuais, mas também os erros dos grupos, das culturas e dos sistemas que alimentam determinados comportamentos. Há uma sociedade que glamouriza o perigo. Há ambientes que naturalizam a imprudência. Há lideranças incapazes de reconhecer seus próprios limites. Há organizações que confundem aventura com irresponsabilidade.

E há também a dor silenciosa dos pais. É fácil apontar dedos quando a tragédia já aconteceu. Difícil é reconhecer a condição humana em sua fragilidade. Nenhum pai é onipresente. Nenhuma mãe consegue estar em todos os lugares. Educar é amar sem poder controlar completamente. Criar filhos é aceitar, desde o início, que eles caminharão por estradas onde nossa proteção não alcança. Os pais erram. Todos erram. Erram pela ausência, pela confiança excessiva ou pela incapacidade de prever o imprevisível. Mas também erram porque são humanos. No fundo, a morte de Maria Eduarda nos confronta com uma pergunta incômoda: por que insistimos em ultrapassar limites que existem justamente para preservar a vida?

A cultura contemporânea celebra o "voar mais alto", o "ir além", o "não ter medo". Entretanto, raramente ensina o valor filosófico do limite. Desde os gregos, sabemos que a desmedida — a hybris — costuma ser o prelúdio da queda. O ser humano sofre quando esquece sua condição e acredita poder ocupar um lugar que não lhe pertence.

Maria Eduarda partiu cedo demais. E sua morte permanece como uma dolorosa lembrança de que nem todo voo representa liberdade. Alguns voos são apenas quedas que ainda não começaram. Alguns sonhos, quando desligados da prudência, transformam-se em armadilhas. E alguns desejos, quando não reconhecem seus limites, acabam encontrando não o céu que prometiam, mas o silêncio definitivo da terra.

Que sua partida não seja apenas mais uma notícia passageira. Que sirva como reflexão sobre os excessos do nosso tempo, sobre a ilusão da invulnerabilidade e sobre a urgente necessidade de reaprendermos uma verdade antiga: a sabedoria não está em voar cada vez mais alto, mas em saber até onde é possível voar sem perder a própria vida.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 14/06/2026
Alterado em 14/06/2026