DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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CÂNTICO DA SAUDADE: A VOZ QUE PERMANECE

Há ausências que chegam como uma tempestade. Outras, porém, instalam-se silenciosamente na casa da alma, ocupando os cômodos da memória e permanecendo ali para sempre. A morte de um pai é uma dessas ausências. Não se trata apenas da partida de alguém amado; é como se uma parte da própria história fosse arrancada do tempo e lançada ao infinito.

Ainda hoje, quando caminho pelos corredores da lembrança, encontro meu pai sentado à mesa. Vejo-o falando sobre seus projetos, compartilhando sonhos, sorrindo com a simplicidade dos homens que carregam o mundo nos ombros sem jamais reclamar do peso. Naquela época, eu não sabia que aqueles instantes comuns se transformariam em tesouros. Não sabia que um dia a cadeira estaria vazia e que o silêncio ocuparia o lugar de sua voz.

A saudade tem seus próprios caminhos. Às vezes ela chega de mansinho, através de uma fotografia esquecida sobre um móvel. Outras vezes, invade o coração sem aviso, trazendo consigo o perfume distante dos dias felizes. Então o retrato deixa de ser apenas uma imagem e torna-se uma janela aberta para um tempo que não volta mais.

Meu pai foi mais que um genitor. Foi amigo, conselheiro, companheiro de jornada. Em sua maneira de viver, ensinava sem discursos. Em seus gestos simples havia lições que os livros não contêm. Seu amor não precisava de solenidades; manifestava-se nos cuidados cotidianos, nos conselhos oportunos e na presença constante.

Quando a enfermidade o visitou, aprendi com ele a dignidade da resistência. Quando a dor o alcançou, aprendi a fortaleza da alma. Sem perceber, fui edificando meu próprio caráter sobre os alicerces de sua existência. Muito do que sou nasceu daquilo que vi nele.

A morte, entretanto, possui a estranha incapacidade de apagar certas presenças. Meu pai calou a voz, mas não o significado de suas palavras. Seu corpo partiu, mas sua influência permaneceu. Há momentos em que o escuto na quietude de uma oração, como se a eternidade permitisse que os laços do amor atravessassem a distância entre os mundos.

Talvez seja esse o mistério da saudade: ela dói porque o amor continua vivo. Quem esquece não sente saudade. Somente os que amam carregam esse doce e amargo privilégio de recordar.

Por isso, quando a noite se torna mais longa e a lembrança mais intensa, não me entrego apenas à tristeza. Prefiro acreditar que a existência não termina nos limites da matéria. Prefiro imaginar que, em algum lugar além dos horizontes visíveis, meu pai continua sua jornada. E que um dia, sob os desígnios do Eterno, nossas almas voltarão a se encontrar.

Até lá, guardo suas memórias como quem protege uma chama sagrada. Porque há pessoas que morrem para o mundo, mas jamais para o coração de seus filhos.

E enquanto eu viver, sua voz continuará ecoando dentro de mim, transformando a saudade em um cântico de amor que o tempo nunca conseguirá silenciar.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 09/06/2026
Alterado em 09/06/2026