ESTRADA DA VIDA
Chega um momento em que o homem olha para trás e percebe que a vida não foi apenas uma sucessão de dias, mas uma estrada percorrida entre encontros, perdas, acertos e equívocos. É como se, ao aproximar-se do fim da jornada, pudesse contemplar com mais nitidez as marcas deixadas pelo caminho e compreender que cada passo teve o seu sentido.
Penso que a maior sabedoria não está em ter vivido sem erros, mas em reconhecer que aquilo que se plantou foi, inevitavelmente, o que se colheu. Algumas sementes floresceram em alegria; outras, em aprendizado. Houve amores que aqueceram a alma e dissabores que a feriram profundamente. Contudo, nenhum deles foi inútil. Todos contribuíram para a construção da pessoa que hoje habita este corpo cansado pelo tempo, mas enriquecido pela experiência.
Ao longo da caminhada, fui muitas coisas. Em determinados momentos, fui dureza e combate, respondendo às adversidades com a força que julgava necessária para sobreviver. Em outros, fui afeto, entrega e acolhimento, porque descobri que o amor é a mais elevada linguagem humana. Carreguei contradições, como todos carregam. Afinal, ninguém atravessa a existência sendo apenas luz ou apenas sombra.
As experiências do mundo, mesmo as mais dolorosas, nunca foram desperdiçadas. Houve dias de consternação, quando a esperança parecia ausentar-se do horizonte e os caminhos se tornavam estreitos. Ainda assim, cada dificuldade deixou uma lição. Cada perda revelou uma verdade. Cada decepção ensinou algo sobre a condição humana e sobre mim mesmo.
Hoje, ao contemplar a inevitabilidade da partida, compreendo que ela é apenas mais uma curva da estrada. Sei que, quando chegar a hora, serei apenas mais um rosto que desaparecerá da multidão dos vivos. O tempo seguirá o seu curso, as ruas continuarão movimentadas e o mundo não interromperá seu ritmo por causa da ausência de um homem. Essa constatação, longe de ser amarga, é profundamente libertadora. Ela nos recorda que a grandeza da vida não está na permanência, mas na passagem.
Quanto aos desafetos, não levo comigo ressentimentos nem me detenho em despedidas. Há encontros que terminam antes mesmo da morte chegar. Já aqueles que me amaram e que por mim foram amados ocuparão um lugar diferente. Permanecerão na memória, não como estátuas do passado, mas como presenças que ajudaram a dar significado à jornada.
E assim sigo, com a serenidade de quem percorreu sua estrada sabendo que viver é mais do que chegar ao destino. Viver é aceitar o caminho, com suas curvas, seus espinhos e suas flores, reconhecendo que cada passo teve o seu propósito e que toda existência, por mais simples que pareça, carrega em si uma justificativa silenciosa e profunda. Afinal, a estrada da vida termina para todos, mas as marcas deixadas ao longo dela continuam ecoando no coração daqueles que caminharam ao nosso lado.