SOLIDÃO OU LIBERDADE?
Cordel de Jeovan Rangel
Pergunto ao vento que passa,
Ao silêncio da amplidão:
Será que a liberdade
Nasce da solidão?
Ou será um túnel escuro
Sem saída ou direção?
Há quem diga que sozinho
O homem pode encontrar
Uma forma de existência
Que ninguém pode roubar;
Pois distante dos olhares
Pode enfim se revelar.
Schopenhauer já dizia,
Com notável lucidez:
"Quem não ama a solidão
Não ama a liberdade, talvez”.
Pois somente estando só
O ser encontra sua vez.
Quando a porta se fecha atrás
E o mundo fica distante,
Cai por terra a encenação,
O disfarce vacilante;
Surge então o homem nu,
Verdadeiro e pulsante.
Sem as vozes da plateia,
Sem censura ou imposição,
Cada um se mostra inteiro
Na sua exata feição;
Se é forte, mostra a força,
Se é fraco, a fragilização.
O mesquinho vê-se pequeno
Diante da própria verdade;
O espírito grandioso
Reconhece sua grandeza e vontade;
Na solidão cada qual
Encontra sua identidade.
Ali não há testemunhas,
Nem aplauso, nem reprovação;
Somente o eco da alma
Em profunda observação;
O homem frente a si mesmo
Em íntima contemplação.
A meditação floresce
No terreno do recolher;
A filosofia caminha
Onde há tempo para entender;
Pois o saber mais profundo
Precisa do silenciar para nascer.
Quantas vezes, lá de fora,
Julgam triste o retirado,
Pensam vê-lo derrotado,
Pelo mundo abandonado;
Sem saber que naquele instante
Ele está sendo libertado.
Talvez chore, talvez ria,
Talvez se ponha a pensar;
Talvez converse consigo
Sem ninguém para escutar;
Mas reencontra sua essência
No simples ato de estar.
A solidão não é castigo,
Nem sempre sombra e aflição;
Pode ser caminho aberto
Para a auto compreensão;
Um encontro com a verdade
Guardada no coração.
Por isso, quando o silêncio
Vier lhe fazer companhia,
Não o receba com medo
Nem com amarga agonia;
Pois às vezes a liberdade
Chega vestida de solidão um dia.