DO BARRO AO VERBO
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O HOMEM E SUA FOME DE INFINITO

O homem nasce incompleto. Entre todas as criaturas, talvez seja a única que carrega em si uma estranha consciência da própria insuficiência. Alimenta-se e continua faminto. Ama e continua carente. Conquista e continua inquieto. Descansa e continua cansado. Há nele uma falta que nenhuma posse elimina, uma sede que nenhuma fonte terrena consegue extinguir completamente.

A vida humana é uma sucessão de buscas. Desde a infância, o homem persegue aquilo que acredita poder preencher o vazio que habita seu interior. Procura reconhecimento, afeto, segurança, prazer, conhecimento, sucesso e poder. Entretanto, ao alcançar cada uma dessas coisas, descobre que elas possuem limites. O que ontem parecia ser a resposta definitiva, hoje revela-se apenas mais uma estação de passagem.

A psicologia reconhece esse fenômeno como parte constitutiva da subjetividade humana. O desejo nunca encontra um objeto capaz de satisfazê-lo plenamente. Quando um objetivo é alcançado, outro surge em seu lugar. O ser humano é movido por uma falta permanente. Sua alma é um território de carências, expectativas e idealizações que se renovam incessantemente.

Mas a teologia vê nessa mesma falta algo mais profundo. Aquilo que a psicologia descreve como desejo, a teologia compreende como nostalgia da origem. O homem não é apenas um ser carente; é um ser separado. Carrega em si a memória silenciosa de uma comunhão perdida e a esperança, muitas vezes inconsciente, de reencontrá-la. Seu coração vagueia pelo mundo procurando aquilo que, no fundo, pertence à eternidade.

Por isso o homem sofre. Não apenas porque perde pessoas, oportunidades ou sonhos, mas porque nenhuma realidade temporal corresponde integralmente à grandeza de seus anseios. Existe uma desproporção entre o tamanho do seu desejo e os recursos disponíveis no mundo. Sua alma pede o absoluto, mas suas mãos tocam apenas o transitório. Essa condição gera angústia.

A angústia é o sentimento de quem percebe que a vida é maior do que suas explicações. É o desconforto de habitar um mundo que oferece respostas parciais para perguntas infinitas. É a consciência de que existe algo além do horizonte, embora não seja possível vê-lo claramente.

Muitos tentam fugir dessa experiência. Entregam-se às distrações, ao consumo, ao ativismo incessante ou à superficialidade. Procuram silenciar a voz da alma mediante o ruído do cotidiano. Contudo, o silêncio retorna. E quando retorna, o homem reencontra a si mesmo.

Nesse encontro, descobre que sua maior batalha não acontece contra o mundo, mas dentro dele. O conflito entre aquilo que é e aquilo que gostaria de ser. Entre seus impulsos e seus valores. Entre suas limitações e seus ideais. Entre sua finitude e seu anseio de eternidade.

A Bíblia descreve esse drama de maneira singular. O homem foi feito do pó da terra, mas recebeu o sopro divino. É matéria e transcendência. Corpo e mistério. Animalidade e espírito. Carrega em si o chão e o céu. Talvez por isso sua existência seja marcada por uma tensão permanente. Ele pertence ao tempo, mas sonha com o eterno. Pertence à terra, mas deseja o infinito. Pertence ao presente, mas busca algo que transcenda todos os presentes. Sua dor não é um defeito da criação. É um sinal de sua profundidade. Revela que existe nele algo que não pode ser reduzido aos instintos, à biologia ou às circunstâncias. O sofrimento humano testemunha que a alma possui dimensões que ultrapassam o mundo visível. E é justamente nessa ferida que surge a possibilidade da fé. Não como fuga da realidade, mas como reconhecimento de que a realidade não se esgota em si mesma. O homem amadurece quando compreende que sua fome mais profunda não é de coisas, mas de sentido; não é de conquistas, mas de plenitude; não é apenas de amor humano, mas da Fonte de todo amor. Enquanto existir, continuará caminhando entre certezas e dúvidas, alegrias e perdas, encontros e despedidas. Continuará procurando. E talvez a sua maior grandeza resida exatamente nisso: ser um peregrino da eternidade, carregando dentro de um coração finito o desejo infinito de Deus.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 05/06/2026
Alterado em 05/06/2026