HERANÇA DO SILÊNCIO
Pai, teu olhar morava em névoa fria,
Como quem vive ausente de si mesmo;
E eu, menino perdido em agonia,
Buscava amor em teu semblante leso.
Teu gesto duro abriu no tempo um corte,
Ferida antiga em minha identidade;
Carrego ainda o peso dessa morte
Que nunca teve nome ou claridade.
Não fui capaz de te alcançar inteiro,
Nem desfazer teus nós e teus abismos;
Restou-me apenas este tom cinzeiro
De afetos rotos, culpas e mutismos.
E ao te chamar na solidão tardia,
Só o vazio responde à alma fria.