ENTRE A LEI E A GRAÇA: O Perigo da Judaização do Cristianismo.
Há um fenômeno crescente em determinados setores do cristianismo contemporâneo que merece profunda reflexão teológica: a tentativa de judaizar o Evangelho de Jesus Cristo. Trata-se de um movimento que, sob o pretexto de “retorno às raízes”, busca restaurar práticas cerimoniais da antiga aliança como se o Cristo não houvesse consumado plenamente a obra redentora de Deus na história.
Se, porventura, eu descobrisse possuir ascendência judaica — hipótese plausível diante da dispersão dos judeus sefarditas pela Península Ibérica após as perseguições de 1492 e 1497 — isso em nada alteraria o fundamento da minha fé. Continuaria cristão. Continuaria confessando Jesus como o Messias prometido, o Verbo eterno encarnado, a plenitude da revelação divina e o cumprimento absoluto da Torah.
Não retornaria à circuncisão, porque nela não vejo mais valor salvífico algum. O próprio apóstolo Paulo de Tarso combateu energicamente aqueles que pretendiam submeter os cristãos gentios aos sinais cerimoniais da antiga aliança:
“Se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará.” — Gálatas 5:2
A circuncisão da carne foi substituída pela circuncisão do coração, operada pelo Espírito. Insistir no retorno a símbolos antigos como exigência espiritual é obscurecer a suficiência da cruz.
Também não regressaria à observância ritualística do sábado, como se um dia específico pudesse conter a totalidade do sagrado. Em Cristo, o crente não santifica apenas um dia da semana; sua própria existência torna-se culto contínuo. O descanso sabático encontra sua realização definitiva no próprio Cristo:
“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” — Mateus 11:28
O problema da judaização moderna não está em estudar as raízes hebraicas da fé cristã — o que é legítimo e enriquecedor —, mas em transformar sombras em substância, símbolos em essência, figuras em finalidade. O Novo Testamento é absolutamente claro ao afirmar que os ritos da antiga aliança eram apenas prenúncios:
“Tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo.” — Colossenses 2:17
Há, portanto, uma contradição teológica em abandonar a centralidade do Cristo consumado para reconstruir estruturas religiosas que o próprio Evangelho transcendeu. Quando determinadas igrejas passam a substituir a simplicidade do Evangelho por calendários judaicos, vestimentas ritualísticas, legalismos alimentares e observâncias cerimoniais, correm o risco de retroceder da graça para a pedagogia da Lei.
Paulo viu esse perigo já no primeiro século. A Epístola aos Gálatas é, essencialmente, um combate contra a judaização da fé cristã. O apóstolo não hesita em afirmar:
“Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou?”— Gálatas 3:1
A pergunta permanece atual. O cristianismo não é um apêndice do judaísmo rabínico, nem uma tentativa de reviver cerimonialismos mosaicos. O cristianismo nasce precisamente da convicção de que a antiga aliança encontrou seu ápice, sua consumação e sua plenitude em Jesus Cristo. Como diz a Escritura:
“Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê.” — Romanos 10:4
Isso não significa desprezo pela Torah. Pelo contrário. Significa reconhecer que a Torah apontava para algo maior do que ela mesma. Antes de Cristo, a Lei funcionava como pedagogo; depois de Cristo, a Verdade se manifesta pessoalmente:
“A lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.”— João 1:17
Portanto, a verdadeira fé cristã não consiste em reconstruir práticas identitárias da antiga aliança, mas em viver pela graça mediante a fé no Filho de Deus. A verdadeira religião não é o retorno ao símbolo, mas o encontro com a Realidade para a qual todos os símbolos apontavam.
A Torah anunciava. Cristo consumou. E, depois da plenitude, voltar às sombras é correr o risco de perder a glória do Sol.