A IMPOSSIBILIDADE DO DIÁLOGO COM O ABSOLUTO
Há uma linha tênue — e muitas vezes invisível — entre a convicção profunda e o fundamentalismo. O indivíduo que se dispõe a morrer por um dogma não está apenas afirmando uma crença; ele está encarnando uma verdade que, para ele, deixou de ser interpretativa e passou a ser absoluta, inquestionável, totalizante. Nesse ponto, o dogma já não é mais um norte — é um fim em si mesmo. E quando a crença se torna fim, o sujeito se torna meio.
O problema não reside necessariamente na intensidade da fé, mas na sua impermeabilidade. Quando não há fissura possível, quando nenhuma pergunta atravessa, quando o outro não é reconhecido como interlocutor legítimo, o espaço do debate desaparece. O diálogo pressupõe abertura, ainda que mínima; pressupõe a possibilidade de que algo no discurso do outro possa afetar, deslocar, tensionar. Mas o fundamentalista não dialoga — ele afirma, repete, sustenta. Sua relação com a verdade não é mediada pela dúvida, mas blindada contra ela.
Nesse cenário, o debate se torna quase impossível, porque não há terreno comum. Argumentos não atravessam certezas absolutas. A razão não opera onde o dogma se impõe como verdade final. E mais: a disposição para morrer por uma ideia frequentemente vem acompanhada da disposição — explícita ou latente — de matar por ela. É aí que o perigo se instala de forma mais aguda.
O extremismo, seja ele religioso, político ou ideológico, compartilha essa mesma estrutura psíquica: a recusa da complexidade. O mundo é reduzido a binarismos simplificadores — certo ou errado, puro ou impuro, salvo ou condenado. Essa lógica elimina nuances, apaga subjetividades e legitima violências em nome de uma suposta verdade superior.
Por isso, todo extremo é perigoso — não apenas pelo que afirma, mas pelo que exclui. Ao eliminar o outro como possibilidade legítima de existência e pensamento, o extremismo não apenas empobrece o mundo; ele o ameaça. A convivência humana depende menos de unanimidade e mais de tolerância à diferença. Quando essa tolerância se rompe, o que resta não é convicção — é imposição.
E onde só há imposição, já não há humanidade compartilhada — há apenas disputa de absolutos.
Ensaio crítico-reflexivo com abordagem filosófica e psicanalítica sobre o fundamentalismo e os limites do diálogo frente ao extremismo.