A ILUSÃO DE UM CRISTIANISMO SEM IGREJA
Há, no imaginário religioso contemporâneo, uma tentação recorrente: a de opor Cristo à instituição, como se fosse possível preservar a pureza do Evangelho pela via de um desligamento da Igreja. Trata-se de uma fantasia sedutora — e, ao mesmo tempo, profundamente ingênua.
A crítica à instituição não é nova. Desde os eremitas do deserto até os movimentos reformistas, emerge o mesmo gesto: afastar-se da corrupção do coletivo para preservar uma suposta integridade do indivíduo diante de Deus. No entanto, esse movimento carrega em si uma contradição estrutural. O sujeito que se retira, ao reunir outros em torno de sua experiência, funda novamente aquilo que pretendia negar: uma nova forma institucional.
A instituição, portanto, não é um desvio acidental do cristianismo — ela é uma consequência inevitável da vida em comum. Onde há dois ou três reunidos, há estrutura, há linguagem compartilhada, há norma, há poder. Negar isso é desconhecer não apenas a história da Igreja, mas a própria condição humana.
Do ponto de vista teológico, é preciso afirmar sem hesitação: nenhuma instituição é pura. A Igreja, enquanto realidade histórica, é atravessada pelo pecado porque é habitada por homens. A escandalização diante das falhas institucionais, embora compreensível, frequentemente revela uma expectativa infantil de perfeição — como se o corpo eclesial pudesse existir sem a marca da queda.
Entretanto, reconhecer a falibilidade da instituição não implica absolvê-la. Há crimes, há abusos, há distorções que exigem julgamento e responsabilização. O problema surge quando se realiza um salto indevido: quando o pecado histórico é elevado à condição de essência da Igreja. Nesse ponto, a crítica deixa de ser discernimento e se torna redução.
Mas talvez a questão mais incômoda não seja a instituição em si, e sim o lugar do sujeito dentro dela. Até que ponto o indivíduo participa da culpa institucional?
Até que ponto sua permanência é cumplicidade, e até que ponto é resistência. A resposta não comporta simplificações. O sujeito não é automaticamente culpado pelos pecados da instituição, mas tampouco é neutro. Há uma implicação subjetiva inevitável: silenciar, tolerar, justificar ou se beneficiar de estruturas adoecidas inscreve o indivíduo em uma cadeia de responsabilidade.
Aqui, a psicanálise oferece uma chave decisiva: não há sujeito fora do laço. E todo laço implica alienação e responsabilidade. O desejo de um cristianismo “puro”, desvinculado de qualquer estrutura, pode ser lido como uma recusa em lidar com essa implicação — uma tentativa de salvar a própria imagem à custa da negação do real. Por isso, a saída não está na ruptura simplista com a instituição, mas na assunção ética de uma posição dentro dela. Permanecer não como cúmplice, mas como sujeito. Não como massa, mas como consciência. Não como repetição, mas como tensão.
O verdadeiro problema não é a existência de instituições imperfeitas — isso é inevitável. O problema é a ausência de sujeitos capazes de habitá-las sem se dissolver nelas.
O cristianismo, em sua forma mais radical, não é a negação da instituição, mas a sua constante desestabilização a partir de dentro. Cristo não fundou uma experiência privada; Ele constituiu um corpo. E todo corpo vivo é, por definição, atravessado por conflitos, tensões e contradições.
A ilusão de um cristianismo sem instituição é, no fundo, a ilusão de um sujeito sem conflito. E isso, definitivamente, não existe.
Este ensaio teológico-crítico, com abordagem psicanalítica e eclesiológica, nasceu de uma boa e demorada conversa entre mim e George Hilton Brito quando ele trouxe a ideia, e pediu-me para fazer um análise.