DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

ENTRE O ALTAR E O PROFANO

Há uma linha invisível que atravessa o sujeito — não como fronteira estável, mas como fenda. De um lado, o altar; do outro, o profano. Mas essa divisão não se sustenta fora — ela se inscreve no próprio coração humano. Viver entre esses dois polos não é desvio: é estrutura.

Os filhos de Eli, Hofni e Finéias (1 Sm 2. 27-36) encarnam a forma mais endurecida dessa divisão. Permanecem no altar, mas já não são afetados por ele. O sagrado, ali, deixa de operar como limite e passa a ser capturado pelo gozo. Não há conflito — e é justamente isso que denuncia a gravidade: quando o sujeito já não se divide, ele já se perdeu.

Em Davi, (2 Sm 11. 1-27) o cenário é outro. Há queda, há desejo, há transgressão — mas há também divisão. Davi não coincide consigo mesmo após seu ato. Algo nele se rompe, e é dessa ruptura que emerge a possibilidade de retorno. Não um retorno moral, mas um reposicionamento subjetivo diante do que o atravessou.

E é nesse ponto que o texto deixa de ser apenas bíblico.

Eu também estive entre o altar e o profano. Não como quem instrumentaliza o sagrado, mas como quem foi atravessado por aquilo que não domina. Caí — e, ao cair, não pude me sustentar na ilusão de integridade. Diferente da lógica cínica que banaliza a falta, algo em mim ainda reconhecia o peso do que havia acontecido. Afastei-me do altar. Mas esse afastamento não foi ruptura com o sagrado — foi, paradoxalmente, uma forma de preservá-lo. Permanecer ali, como se nada tivesse acontecido, seria reduzir o altar a cenário e Deus a função. Sair foi reconhecer um limite: o de não transformar o sagrado em álibi para o próprio gozo.

Se ainda há algo que me orienta, é justamente essa divisão que não se apagou. Porque é ela que impede a acomodação. É ela que mantém vivo o fato de que o altar não é extensão do sujeito — é alteridade radical.

Entre os filhos de Eli e Davi, a diferença não está no erro, mas na posição diante dele. Uns já não respondem; o outro é atravessado pela própria falta.

Hoje, se ainda me encontro entre o altar e o profano, não é mais como quem oscila ingenuamente entre dois espaços, mas como quem carrega em si essa tensão. Não há reconciliação fácil. Há consciência.

Ainda que isso sustentasse a possibilidade de um dia voltar — não o faria como quem nunca caiu, mas como quem já não precisa se esconder atrás do altar para não se confrontar com o que é. Porque, no fim, o altar não exige perfeição. Exige verdade.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 30/04/2026
Alterado em 01/05/2026