DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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ONDE VOCÊ AINDA MORA

Há casas que não existem mais no mundo, mas permanecem de pé dentro de nós.

Passei pela rua onde você morava. O chão ainda é o mesmo, o céu ainda se estende como antes, mas a casa… a casa já não está. Foi derrubada, como se o tempo tivesse decidido apagar um endereço da memória da cidade. Ainda assim, te encontrei — não ali, nos tijolos ausentes, mas numa imagem congelada no Google Earth. Uma fotografia antiga, intacta, como se o tempo tivesse tido piedade e deixado uma fresta aberta para que eu pudesse entrar outra vez. E entrei.

Vi você sentada, como tantas vezes, com as mãos ocupadas e o coração tranquilo. O crochê, o tricô, o macramê — fios que não eram apenas linhas, mas formas silenciosas de amar. Você costurava o tempo sem saber, prendendo nos pontos miúdos as horas que hoje me faltam.

Há três anos você partiu. E desde então, o mundo ficou maior — não porque cresceu, mas porque ficou vazio em partes importantes. Um vazio que não se mede em metros, mas em ausência. Um espaço que não se preenche com nada, porque tem o formato exato de quem se foi.

Algumas coisas mudaram, é verdade. A vida seguiu, como sempre segue, meio indiferente, meio insistente. Mas há algo que não se move: a lembrança. Ela permanece firme, como uma casa que não pode ser demolida. E junto com ela, a saudade — essa visitante que não pede licença, que bate à porta e entra, trazendo consigo cada detalhe seu.

Lembro da carne frita. Simples, talvez, para quem nunca provou. Mas para mim, era mais que comida — era presença, era cuidado, era você em forma de sabor. Há coisas que só existem uma vez na vida, e depois nunca mais. Sua carne frita é uma delas. Assim como seu jeito, sua voz, sua existência naquele espaço que hoje só habita em mim. E todos os anos, nesse mesmo dia, você me visita nos sonhos. Como se soubesse que a saudade aperta mais, que a solidão cresce e se torna quase inexpugnável. Como se viesse, silenciosa, dizer que ainda está — não onde meus olhos podem ver, mas onde minha alma ainda te reconhece.

Talvez seja isso o amor depois da ausência: uma presença invisível, mas irremovível. A casa caiu. A rua segue. O tempo passou. Mas você… você permanece.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 29/04/2026
Alterado em 29/04/2026