DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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“ESTÁ MORTO: PODEMOS ELOGIÁ-LO À VONTADE.” (Machado de Assis)

Há algo de profundamente revelador nessa frase de Machado de Assis. Não é apenas uma ironia elegante — é um diagnóstico da alma social. Enquanto vivos, somos incômodos. Temos arestas, contradições, opiniões que atravessam o conforto alheio. Existimos, e existir é, inevitavelmente, perturbar.

O morto, ao contrário, já não responde. Não confronta. Não desmente. Sua imagem pode ser moldada sem resistência, como argila nas mãos de quem ficou. É nesse silêncio definitivo que nasce o elogio fácil — aquele que não exige coragem, apenas conveniência.

Quantos foram ignorados em vida, silenciados, ridicularizados, até mesmo rejeitados… para depois serem celebrados com discursos inflamados e homenagens tardias? O elogio póstumo, muitas vezes, não é honra — é absolvição de quem não soube reconhecer antes.

Há, nisso, uma espécie de economia afetiva: poupa-se o esforço de lidar com o outro real — complexo, falho, vivo — para investir numa versão idealizada, segura, domesticada pela morte. O morto não decepciona mais. E justamente por isso, torna-se digno de todos os aplausos.

Mas essa lógica revela algo inquietante: talvez não saibamos amar o que pulsa, apenas o que já não pode nos contrariar.

E então fica a pergunta incômoda — daquelas que não aceitam resposta rápida: será que somos capazes de elogiar com a mesma generosidade aqueles que ainda respiram? Ou precisamos, antes, que eles se calem para sempre?

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 28/04/2026
Alterado em 28/04/2026