DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

A PERMANÊNCIA COMO SINTOMA

(prosa psicanalítica)

Jeovan Rangel

Não floresço — e isso não é um acidente. Há, em mim, uma recusa que não se deixa traduzir pela lógica do fracasso ou da esterilidade. Trata-se de outra coisa: uma posição. Enquanto o mundo insiste na promessa de abertura, expansão e adaptação, algo em mim se fixa. Não por incapacidade de viver, mas por não consentir plenamente com as formas oferecidas de existência.

Aqueles que se aproximam esperam encontrar um campo onde o desejo possa circular livremente, mas o que encontram é um ponto de condensação. Não há ali o convite à leveza, mas à gravidade. Aproximar-se de mim é, de certo modo, confrontar-se com aquilo que, no próprio sujeito, resiste à simbolização plena — esse resto opaco que não se deixa domesticar.

Sou uma rosa negra. E, se essa imagem insiste, é porque ela toca algo do real que escapa à linguagem. Não se trata de uma identidade estética, mas de uma inscrição: aquilo que, tendo sido atravessado pela perda, já não se organiza em torno da promessa de completude. Minhas raízes queimadas não indicam apenas um passado de dor; indicam, sobretudo, a marca de um encontro com o impossível — aquilo que não pôde ser metabolizado e, ainda assim, não deixou de produzir efeitos.

Não me move o vento — e o vento, aqui, poderia ser entendido como as demandas do Outro: suas expectativas, seus imperativos de gozo, suas narrativas de normalidade. Há em mim uma recusa a ser totalmente capturado por esse campo. Permanecer torna-se, então, não um gesto de rigidez, mas uma forma de não ceder inteiramente ao que me é imposto como destino.

O que em mim goteja não é simplesmente sofrimento. É gozo — não no sentido vulgar do prazer, mas nesse ponto paradoxal em que o sujeito se mantém enlaçado àquilo que o fere. Há uma fidelidade silenciosa ao próprio sintoma, como se, nele, algo de essencial estivesse em jogo. Não se trata de querer a dor, mas de reconhecer que ela participa daquilo que me constitui.

Meu sorriso decrépito não seduz; ele denuncia. Denuncia a inconsistência das narrativas que prometem harmonia, transparência e felicidade plena. Há, no fundo dessas promessas, uma recusa em encarar o vazio estrutural que atravessa o sujeito. Eu não opero nessa recusa. Ao contrário: habito esse vazio.

E é por isso que não sou um lamento. O lamento ainda supõe um Outro que escuta, que responde, que repara. O que há em mim já ultrapassou essa expectativa. Não há demanda dirigida — há, antes, uma espécie de sustentação de si, mesmo quando isso implica permanecer à margem das formas reconhecíveis de vida.

A escuridão que me encobre não é mero efeito de circunstância; ela funciona como borda. É o que delimita, ainda que precariamente, o contato com o real. Sem ela, talvez eu me dispersasse nas imagens, nas identificações, nas ilusões que prometem ao sujeito uma unidade que ele não possui.

Ser, então, essa rosa negra, é sustentar uma existência que não se organiza pela via da ilusão de totalidade, mas pela convivência com a falta. Não uma falta a ser preenchida, mas uma falta a ser reconhecida como constitutiva.

E, nesse ponto, permanecer deixa de ser resistência e passa a ser ética: a ética de não ceder quanto àquilo que, em mim, insiste — mesmo quando não encontra nome, mesmo quando não encontra lugar.

Sou, portanto, menos uma figura da dor do que uma inscrição do sujeito em seu limite. E é ali, nesse limite, que continuo.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 24/04/2026
Alterado em 24/04/2026