DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

O QUE EM MIM NÃO SE CALA

Há em mim uma espécie de transbordamento contido — como um rio que aprendeu a correr por dentro da terra para não devastar as margens. Nem tudo em mim encontra passagem na fala, nem tudo se permite existir no gesto. Carrego pausas, retenções, silêncios densos. Mas nada se perde.

O que não digo se reorganiza. O que não vivo até o fim se reescreve. E então eu escrevo. Minha escrita não é ornamento, é destino. É o lugar onde minha intensidade encontra forma sem precisar pedir licença. Ali, o que contive ganha corpo; o que adiei ganha voz; o que senti, mas não compreendi, começa a se revelar. Eu não escrevo apenas o que penso — escrevo o que insiste em existir dentro de mim.

Há uma honestidade quase incômoda nisso. Porque escrever, para mim, não é encenar: é expor. É permitir que aquilo que segurei no olhar, na respiração e nas entrelinhas da vida finalmente se diga — ainda que em fragmentos, ainda que em tensão.

Minha relação com as palavras é visceral. Elas não são ferramentas neutras. São extensão da minha tentativa de dar sentido ao que vivo, ao que amo, ao que perdi, ao que ainda espero.

Existe em mim uma força silenciosa — a de quem não se anestesia diante da própria existência. Eu sinto demais, percebo demais, carrego demais. E, ao invés de fugir disso, eu transformo em linguagem. No fundo, minha escrita é uma forma de presença. Uma maneira de dizer: eu estive aqui — inteiro, mesmo quando não parecia.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 21/04/2026