DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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ROSTOS LAVÁVEIS

Vivemos um tempo em que a felicidade tem prazo de validade — e, às vezes, dura apenas até o fim do dia. É uma felicidade cosmética, aplicada com cuidado diante do espelho, filtrada, editada, ensaiada. Uma felicidade que se sustenta enquanto há luz, câmera e plateia. Mas que escorre silenciosamente quando a porta se fecha e o rosto, enfim, é lavado.

As redes sociais se tornaram vitrines dessa alegria performada. Ali, a dor é enquadrada, recortada ou simplesmente excluída. O sofrimento não combina com o algoritmo. O cansaço não engaja. A angústia não viraliza. E assim vamos aprendendo, pouco a pouco, a esconder aquilo que em nós é mais humano: a falta, o vazio, a incompletude.

A superficialidade, curiosamente, tornou-se um valor. O raso é mais fácil de consumir. O raro — aquilo que exige mergulho, silêncio e confronto — assusta. E, nesse cenário, nasce uma felicidade que não brota de dentro, mas que é construída de fora para dentro, como uma maquiagem emocional. Bonita, sim. Mas frágil. Instável. Lavável.

Há muitos risos que são, na verdade, defesas. Gargalhadas que encobrem gritos. Sorrisos que tentam convencer o outro — e a si mesmo — de que está tudo bem. Mas não está. E talvez nunca tenha estado. Porque a felicidade verdadeira não é ausência de dor, mas a possibilidade de sustentar a própria verdade, ainda que ela doa.

Vivemos, então, entre rostos e máscaras. Entre o que se mostra e o que se cala. E talvez o maior ato de coragem, hoje, seja justamente esse: suportar o próprio rosto sem maquiagem. Habitar a própria vida sem filtros. E, quem sabe, descobrir que há uma beleza mais profunda — menos perfeita, menos exibível —, mas infinitamente mais real.

Porque aquilo que não se lava… é o que, de fato, nos constitui.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 26/03/2026
Alterado em 26/03/2026