DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

ESTRANGEIRO DE MIM 

 

Eu me sou tão alheio

que habito em mim como estrangeiro.

Bato à porta do próprio peito

e ninguém responde.

 

Sou inquilino da minha carne,

peregrino na sala dos meus ossos,

visita que não reconhece

os retratos pendurados na memória.

 

Eu me sou tão alheio

que nem a culpa me serve justo.

Ela me veste larga demais,

escorre pelos ombros

como um casaco herdado

de um antepassado que não fui.

 

Se erro, não me encontro no erro.

Se acerto, não me reconheço no acerto.

Há sempre um intervalo

entre o ato e o ser,

uma fenda silenciosa

onde me perco de mim.

 

Procuro-me nos espelhos

mas o vidro devolve apenas

um rosto treinado,

uma máscara polida

para as assembleias do mundo.

 

Dentro, porém,

há um deserto sem nome —

e nele caminho

sem pegadas.

 

Eu me sou tão alheio

que até o remorso me desconhece.

A consciência me chama,

mas a voz chega tarde,

como carta enviada

a endereço inexistente.

 

Sou exilado da própria história,

autor que não assina o texto,

réu que não compreende a sentença,

juiz que se ausentou do tribunal.

 

E assim sigo —

não inocente,

não culpado,

apenas deslocado

do eixo invisível que me faria inteiro.

 

Talvez um dia

eu me encontre

no susto de um abismo

ou no silêncio de um quarto fechado,

quando finalmente

deixar de fugir

da estranheza de ser.

 

Até lá,

sou esse intervalo —

essa pausa entre mim

e mim mesmo.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 26/02/2026