ESTRANGEIRO DE MIM
Eu me sou tão alheio
que habito em mim como estrangeiro.
Bato à porta do próprio peito
e ninguém responde.
Sou inquilino da minha carne,
peregrino na sala dos meus ossos,
visita que não reconhece
os retratos pendurados na memória.
Eu me sou tão alheio
que nem a culpa me serve justo.
Ela me veste larga demais,
escorre pelos ombros
como um casaco herdado
de um antepassado que não fui.
Se erro, não me encontro no erro.
Se acerto, não me reconheço no acerto.
Há sempre um intervalo
entre o ato e o ser,
uma fenda silenciosa
onde me perco de mim.
Procuro-me nos espelhos
mas o vidro devolve apenas
um rosto treinado,
uma máscara polida
para as assembleias do mundo.
Dentro, porém,
há um deserto sem nome —
e nele caminho
sem pegadas.
Eu me sou tão alheio
que até o remorso me desconhece.
A consciência me chama,
mas a voz chega tarde,
como carta enviada
a endereço inexistente.
Sou exilado da própria história,
autor que não assina o texto,
réu que não compreende a sentença,
juiz que se ausentou do tribunal.
E assim sigo —
não inocente,
não culpado,
apenas deslocado
do eixo invisível que me faria inteiro.
Talvez um dia
eu me encontre
no susto de um abismo
ou no silêncio de um quarto fechado,
quando finalmente
deixar de fugir
da estranheza de ser.
Até lá,
sou esse intervalo —
essa pausa entre mim
e mim mesmo.