YASMIN ROSA MACHADO VALENTE ALVES - CARTA ABERTA
Minha filha,
Se um dia estas palavras chegarem até você, talvez o tempo já tenha passado com sua pressa implacável, talvez você já seja uma moça, talvez uma mulher. Talvez já tenha aprendido sobre o mundo, sobre as ausências e sobre as perguntas que, às vezes, parecem não ter resposta. Mas há algo que você precisa saber, e é por isso que escrevo.
Eu vi você nascer. Eu vi, com meus próprios olhos, o milagre de Deus se manifestar na forma mais pequena, mais frágil e mais perfeita que eu já contemplei. Naquele instante, quando você chegou ao mundo em 08 de maio de 2019, permaneceu também um pai. Permaneceu em mim um amor que nunca mais teve fim.
Eu segurei você. Eu contemplei seu rosto. Eu gravei sua existência dentro de mim. E ainda hoje, minha filha, você vive aqui. Depois, o tempo, esse escultor duro e incompreensível, nos separou. A vida criou distâncias que minhas mãos não conseguiram atravessar. Eu vi você novamente quando tinha dois anos, e essa foi a última vez que meus olhos tiveram o privilégio de repousar sobre você. Desde então, o silêncio se tornou o lugar onde minha saudade mora.
Mas você precisa saber de algo que é mais importante do que qualquer ausência: Eu nunca fui embora de você. Mesmo quando você não me viu, eu estava. Eu estava quando pensava em você antes de dormir. Eu estava quando orava por você em silêncio.
Eu estava quando imaginava sua voz, seu sorriso, seus primeiros dias de escola. Eu estava quando o mundo parecia pesado, e ainda assim, só de lembrar que você existia, a vida fazia sentido.
Eu procurei você. Procurei com os meios que tive, com as forças que consegui reunir, com a esperança teimosa de um pai que se recusa a desistir do próprio amor. Nunca houve um dia sequer em que você tenha sido esquecida. Nunca houve um instante em que você tenha sido rejeitada.
Se algum dia disserem a você que eu não quis você, não acredite. Porque a verdade é esta: eu sempre quis. Você foi, é, e sempre será uma parte viva de mim. Desde o seu nascimento, eu estive presente como pude. Cuidei, sustentei, contribuí, e fiz tudo o que estava ao meu alcance, não por obrigação, mas por amor. Porque ser seu pai nunca foi um peso — sempre foi uma honra.
Mas o que mais quero que você saiba não está nos fatos. Está no invisível. Está no amor que nunca morreu.
Minha filha, eu não sei que caminhos seus pés já percorreram. Não sei quais alegrias te visitaram nem quais tristezas te atravessaram. Não sei se alguém já te falou sobre mim. Não sei se você sentiu minha falta ou se aprendeu a viver sem essa referência. Mas eu sei de uma coisa: Eu amo você. Amei você ontem. Amo você hoje. E amarei você até o último dia da minha existência.
Você nunca foi um erro. Você nunca foi um abandono. Você nunca foi uma ausência escolhida. Você foi, e sempre será, minha filha. E se um dia a vida, com sua misteriosa bondade, permitir que nossos caminhos se cruzem novamente, eu não terei perguntas, nem cobranças, nem mágoas. Eu só terei um abraço guardado há anos. Mas se esse dia não chegar, se o tempo não nos conceder esse reencontro, quero que você carregue consigo esta verdade: Seu pai te amou todos os dias. Todos.
Eu orei por você. Eu pedi a Deus que cuidasse de você quando eu não podia. Pedi que Ele te protegesse, te guardasse, te conduzisse por caminhos de luz. E ainda peço.
Onde quer que você esteja, minha filha, que você seja feliz. Que você seja amada. Que você seja protegida. Que você nunca duvide do seu valor. E que, se um dia sentir vontade, você me procure. Eu estarei aqui. Com amor eterno, Seu pai.