DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

A DISTÂNCIA DOS VIVOS

 

Há uma estranha fidelidade que a morte desperta nas pessoas.

 

Quando alguém morre, surgem rostos que o tempo havia apagado. Pessoas que atravessam cidades, estados, às vezes países. Enfrentam horas de estrada, aeroportos, desconfortos e despesas. Chegam em silêncio, vestidas de luto, com semblantes graves e olhos úmidos. Algumas choram. Outras apenas observam o corpo como quem tenta reconhecer, tarde demais, uma intimidade que não construiu.

 

Estão ali.

Presentes.

Mas não estiveram antes.

 

É curioso. Enquanto o coração batia, enquanto a vida ainda ardia com suas pequenas esperanças e suas grandes dores, essas mesmas pessoas não atravessaram a rua. Não fizeram o gesto simples, quase banal, de perguntar:

— Como você está?

 

A morte parece conferir uma dignidade que a vida não teve permissão de possuir.

 

O morto torna-se importante. Seu corpo imóvel passa a merecer o tempo que sua alma viva nunca recebeu. Há coroas de flores, discursos improvisados, memórias resgatadas às pressas, como se a consciência tentasse reparar, em algumas horas, uma ausência de anos.

 

Mas o morto já não precisa.

Os mortos não sentem abandono.

Os vivos, sim.

 

Talvez o velório seja, no fundo, menos sobre quem partiu e mais sobre quem ficou — e sobre o peso insuportável do que não foi feito. Porque não há estrada longa o suficiente que apague a curta distância que nunca foi atravessada.

 

A rua permaneceu ali.

Silenciosa.

Esperando passos que nunca vieram.

 

E essa é uma das maiores tragédias humanas: não a morte que nos leva, mas a indiferença que nos enterra ainda em vida.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 23/02/2026
Alterado em 23/02/2026