A DISTÂNCIA DOS VIVOS
Há uma estranha fidelidade que a morte desperta nas pessoas.
Quando alguém morre, surgem rostos que o tempo havia apagado. Pessoas que atravessam cidades, estados, às vezes países. Enfrentam horas de estrada, aeroportos, desconfortos e despesas. Chegam em silêncio, vestidas de luto, com semblantes graves e olhos úmidos. Algumas choram. Outras apenas observam o corpo como quem tenta reconhecer, tarde demais, uma intimidade que não construiu.
Estão ali.
Presentes.
Mas não estiveram antes.
É curioso. Enquanto o coração batia, enquanto a vida ainda ardia com suas pequenas esperanças e suas grandes dores, essas mesmas pessoas não atravessaram a rua. Não fizeram o gesto simples, quase banal, de perguntar:
— Como você está?
A morte parece conferir uma dignidade que a vida não teve permissão de possuir.
O morto torna-se importante. Seu corpo imóvel passa a merecer o tempo que sua alma viva nunca recebeu. Há coroas de flores, discursos improvisados, memórias resgatadas às pressas, como se a consciência tentasse reparar, em algumas horas, uma ausência de anos.
Mas o morto já não precisa.
Os mortos não sentem abandono.
Os vivos, sim.
Talvez o velório seja, no fundo, menos sobre quem partiu e mais sobre quem ficou — e sobre o peso insuportável do que não foi feito. Porque não há estrada longa o suficiente que apague a curta distância que nunca foi atravessada.
A rua permaneceu ali.
Silenciosa.
Esperando passos que nunca vieram.
E essa é uma das maiores tragédias humanas: não a morte que nos leva, mas a indiferença que nos enterra ainda em vida.