DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

DA EUFORIA À CINZA:

 

O carnaval acabou. E, com ele, dissipou-se também a alegria fabricada, a histeria produzida em escala industrial e o prazer narcótico que, por alguns dias, anestesiou a consciência coletiva. O que resta agora não é o confete, mas o pó. Não é a euforia, mas o silêncio. Não é a promessa, mas a fatura.

 

Durante o carnaval, constrói-se uma suspensão artificial da realidade. O sujeito, temporariamente, deixa de ser quem é: o endividado, o frustrado, o angustiado, o solitário. Ele se torna personagem de uma fantasia socialmente autorizada. Bebe mais do que suporta, entrega-se mais do que deseja, gasta mais do que pode e esquece mais do que deveria. Trata-se de uma espécie de pacto inconsciente: sacrifica-se o futuro em nome de alguns instantes de falsa plenitude.

 

Mas a realidade, implacável, sempre cobra. Passada a festa, emergem as consequências. Doenças sexualmente transmissíveis adquiridas no descuido do instante. Relações ocasionais que deixam marcas permanentes. Filhos que nascerão não do amor, mas do acaso — e cuja origem paterna, por vezes, permanecerá envolta na névoa da inconsciência. Corpos exaustos, organismos intoxicados, psiquismos fragilizados.

 

No campo econômico, o cenário é igualmente devastador. O dinheiro escorreu pelas mãos como areia. Ficou com as cervejarias, com os trios, com as bandas, com toda uma indústria que se alimenta precisamente da ilusão coletiva. Enquanto isso, restam boletos vencidos, aluguel atrasado e o retorno cruel à insuficiência cotidiana.

 

E há ainda o vazio. Talvez este seja o saldo mais perverso do carnaval: a revelação, por contraste, do vazio existencial que já estava lá. A festa não cria o vazio — ela apenas o encobre. Quando o barulho cessa, ele reaparece, mais evidente, mais profundo, mais doloroso. Muitos, incapazes de simbolizar essa queda abrupta, mergulham em estados depressivos. A alma, que por alguns dias acreditou ser livre, percebe novamente suas correntes.

 

O frenesi virou cinzas. Cinzas de promessas não cumpridas. Cinzas de uma alegria que nunca foi substância, apenas superfície. Cinzas de um prazer que não preenchia — apenas distraía.

 

O carnaval, nesse sentido, funciona como metáfora da própria condição humana contemporânea: uma tentativa desesperada de não sentir, de não pensar, de não confrontar a própria falta.

 

Mas a falta permanece. E talvez seja precisamente aí que resida uma possibilidade de verdade. Porque, quando a fantasia cai, surge a oportunidade — ainda que dolorosa — de encontrar algo que não seja fabricado. Algo que não seja comprado. Algo que não termine na quarta-feira.

 

A questão é: quantos estão dispostos a suportar essa verdade sem precisar, novamente, fugir dela?

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 22/02/2026
Alterado em 22/02/2026