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CARNAVAL: A SUPURAÇÃO DA ALMA HUMANA

 

O carnaval não é uma festa. É uma revelação.

 

Aquilo que durante o ano inteiro permanece recalcado sob as camadas de verniz civilizatório, sob o peso das normas, das convenções e da vigilância social, encontra nesses quatro dias a sua autorização simbólica para emergir. O carnaval é o expurgo da pústula humana. Não cria nada; apenas rompe a pele que escondia o que já estava infeccionado.

 

A civilização é, antes de tudo, um pacto de contenção. O homem, para viver em sociedade, precisa renunciar. Precisa conter seus impulsos, domesticar seus desejos, refrear suas inclinações mais primitivas. Essa renúncia é o preço da ordem. É o custo da cultura. Mas o que é recalcado não desaparece. O recalcado apodrece no silêncio.

 

E o que apodrece, um dia, supura. O carnaval é essa supuração coletiva. As máscaras, paradoxalmente, não escondem — revelam. Ao cobrir o rosto social, liberam o rosto pulsional. O indivíduo deixa de representar o personagem que construiu para sobreviver no laço social e passa a encarnar aquilo que, durante o resto do ano, ele precisa negar. Não é uma transformação. É uma autorização.

 

O carnaval não transforma o homem em algo inferior. Apenas suspende a censura que o impedia de se mostrar como é. Por isso há excesso. Excesso de corpo, excesso de álcool, excesso de sexualidade, excesso de ruído. O excesso é a linguagem do que ficou tempo demais reprimido. É o retorno do que foi proibido. A embriaguez não é a causa. É o instrumento. O anonimato não é o acidente. É a condição. A multidão não é o cenário. É o álibi.

 

Na massa, o sujeito dissolve sua responsabilidade. Ele já não é mais um. É apenas parte. E, ao se tornar parte, sente-se desobrigado de responder por si. O superego enfraquece quando o olhar do outro perde sua nitidez. A consciência moral depende da presença de um olhar que julga. No carnaval, esse olhar se dilui.

 

O que emerge, então, é o homem em seu estado menos mediado. Não o homem idealizado pelos discursos humanistas. Mas o homem real. O homem que deseja possuir sem compromisso. O homem que deseja gozar sem consequência. O homem que deseja existir sem limite. Durante o ano, ele finge não ser assim. Durante o carnaval, ele se permite ser. E é precisamente por isso que o carnaval exerce tanto fascínio. Ele oferece algo que a vida comum não oferece: a suspensão da responsabilidade. Uma espécie de permissão social para a regressão.

 

O carnaval é uma regressão ritualizada. Uma volta temporária ao caos anterior à lei. Mas, como toda fístula, sua existência revela uma patologia mais profunda. A necessidade do carnaval denuncia o insuportável peso da própria civilização. Denuncia o quanto o homem vive em conflito consigo mesmo. Denuncia o quanto a identidade social é uma construção frágil, mantida mais pela vigilância do que pela virtude.

 

Se o homem fosse, de fato, aquilo que afirma ser, o carnaval não seria necessário. O carnaval existe porque a repressão existe. E a repressão existe porque o homem não é naturalmente civilizado. Ele é civilizado por contenção. Não por essência.

 

Por isso, quando o carnaval termina, há uma espécie de ressaca ontológica. Não apenas física, mas existencial. O sujeito retorna à sua vida ordinária carregando, muitas vezes, um sentimento difuso de vergonha, de vazio, de deslocamento. Porque ele viu a si mesmo. E, ainda que não formule isso em palavras, sabe. Sabe que aquilo não foi um personagem. Foi ele.

 

O carnaval, portanto, não é a degradação do homem. É a revelação da sua degradação já existente. Não é a causa. É o sintoma. Não é a doença. É a ferida aberta. E, como toda ferida aberta, ela incomoda porque mostra aquilo que a pele tentava esconder. O carnaval é o espelho que a civilização evita olhar. Porque nele não aparece o homem que gostaríamos de ser. Mas o homem que somos quando ninguém está olhando.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 18/02/2026
Alterado em 18/02/2026