DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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ARQUITETURA DA SAUDADE

 

Há saudades que não se anunciam com delicadeza. Elas chegam na madrugada, quando o mundo silencia e o inconsciente abre suas portas sem pedir licença. Foi assim: acordei angustiado, com o peito apertado, atravessado por um sonho em que a ausência do meu pai doía como coisa viva. No sonho, eu caminhava pelas ruas como quem procura mais do que um endereço — eu procurava um lugar de pertencimento. Buscava uma casa que ele havia construído. Meu pai era construtor, mas não apenas de paredes: ele edificava permanências. Quando parei diante da casa, não vi apenas uma construção; vi vestígios dele espalhados em cada detalhe. Aproximei-me devagar, como quem teme profanar um santuário, e comecei a tocar as paredes. Lajota por lajota. Cada uma delas parecia carregar a memória de suas mãos, o peso do seu corpo inclinado sobre o trabalho, o silêncio concentrado de quem constrói para durar.

 

Olhei para o engradamento da casa e reconheci as madeiras — peças cortadas com precisão, a tesoura montada na cumeeira, os encaixes exatos. Eu sabia: foi ele quem cortou aquela madeira, foi ele quem fez aqueles cortes. Meu pai estava ali, não em carne, mas em marca. Não em voz, mas em forma. E isso doía, porque revelava uma verdade dura: ele permanecia nas coisas, mas não mais comigo.

 

Enquanto eu estava submerso nessa imersão de saudade e dor, o atual dono da casa se aproximou. Perguntou o que eu fazia ali. Respondi sem rodeios, como quem confessa: “Estou matando a saudade do meu pai. Foi ele quem fez essa casa.” Contei-lhe a história inteira, como se narrar fosse uma tentativa desesperada de manter meu pai existindo no mundo. Depois, voltei pela mesma rua por onde havia vindo, carregando pensamentos, memórias e uma dor que não cabia no peito.

Então acordei.

 

Mas o despertar não me devolveu à realidade; apenas aprofundou a ausência. A angústia permaneceu. A saudade se tornou física. Uma dor de cabeça forte, uma enxaqueca real, concreta, como se o corpo também estivesse de luto. Desci, tomei a medicação, voltei para a cama. O peito seguia apertado. O sono não voltou. Fiquei ali, acordado, sentindo-me estrangeiro no próprio mundo.

 

Desde a morte do meu pai, muitos dias têm sido assim. Sonho com ele repetidas vezes. Sonhos intensos, vívidos, quase cruéis de tão reais. Eles não me consolam; me lembram. Não fecham feridas; as escancaram. É como se o inconsciente se recusasse a aceitar a perda e insistisse em recriá-lo, mesmo que isso me custe dor.

 

A morte do meu pai não levou apenas um homem. Levou um chão. Desde então, carrego essa sensação estranha de não pertencimento — como se o mundo tivesse continuado, mas eu tivesse ficado um pouco para trás, preso entre o que foi e o que nunca mais será. Há casas que permanecem de pé. Há paredes sólidas, cumeeiras firmes, madeiras bem cortadas. Mas falta aquele que ensinava, pelo gesto e pelo silêncio, como se constrói um lugar para existir.

 

E talvez seja isso que mais doa: não é só a saudade do pai, é a saudade de mim mesmo quando ele ainda estava aqui.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 02/02/2026
Alterado em 02/02/2026