ORELHA, ABANADO DE INOCÊNCIA
Orelha, cachorro amigo,
de abanado coração,
orelha sempre em alerta,
alma pura, mansidão.
Fez da rua seu terreiro,
fez da gente seu irmão.
Abanava camaradagem
como quem oferece paz,
não sabia da maldade
que o mundo às vezes traz.
Acreditou em mãos humanas,
e isso, Orelha, dói demais.
Não havia nele astúcia,
nem faro para o pior,
só a fé de quem confia
no gesto, no olhar, no pó.
Pagou caro a inocência
num mundo duro e feroz.
Quatro sombras sem vergonha,
sem nome, sem coração,
agiram como covardes
na mais vil escuridão.
Foi crime contra a vida,
foi crime contra a compaixão.
Mas não mataram teu rastro,
nem teu jeito de amar.
Orelha vive na lembrança
de quem soube te olhar.
Cachorro bom não morre:
vira saudade no ar.
Que este verso seja prece,
que seja denúncia também.
Quem maltrata um inocente
já perdeu tudo o que tem.
Orelha, amigo leal,
descansa em paz — tu foste bem.
E se existe algum céu justo
para quem só soube amar,
certamente há um lugar
pra ti, correndo a brincar.
Com a cauda abanando o eterno,
sem medo, sem mais chorar. 🐾
Porto Seguro, Bahia, 29 de Janeiro de 2026.
O que aconteceu com o cachorro Orelha dói na alma. Não foi só a morte de um animal, foi um ato de covardia contra um ser indefeso, manso, que só sabia oferecer amizade. Orelha não ameaçava ninguém, não fazia mal a ninguém. Era presença, era carinho silencioso.
Quando alguém é capaz de tamanha crueldade, o problema não está no animal, está no coração de quem fez. Orelha se foi, mas deixa um rastro de indignação e tristeza. Que a memória dele nos lembre que humanidade não se mede por discurso, mas por como tratamos os mais frágeis. Aos quatros marginal, riquinho, que a justiça de Deus recaia sobre cada um deles.