NADA A CELEBRAR
O fim de 2025 não se apresenta como ruptura, mas como confirmação. Não é o encerramento de um ciclo excepcionalmente ruim, e sim a continuidade de uma experiência marcada por dificuldades recorrentes, escolhas equivocadas e lutas que parecem não ter produzido frutos. O ano termina como tantos outros: sem promessa, sem expectativa, sem horizonte. A ideia de “ano novo” perde o sentido quando a experiência acumulada ensina que o tempo muda de número, mas não de substância.
Há um cansaço profundo, que não é apenas físico, mas existencial. Um desgaste de quem lutou muito e, ainda assim, não viu a vida se organizar de modo minimamente satisfatório. A sensação não é de queda recente, mas de permanência no mesmo lugar — um lugar de frustração, de sobrevivência apertada, de esforço contínuo para apenas manter-se de pé. Trabalhar para pagar dívidas, vender o almoço para comprar a janta, transforma o cotidiano em um exercício de resistência sem dignidade simbólica.
Aos 63 anos, o tempo deixa de ser aliado e passa a ser testemunha. O corpo começa a sinalizar limites, a velhice se anuncia não apenas nas dores físicas, mas na percepção de finitude. O futuro, que antes podia ser pensado como construção, agora parece um corredor estreito que conduz mais para trás do que para frente. A sensação de não ter acumulado bens materiais nem vínculos afetivos sólidos aprofunda a ideia de fracasso pessoal, ainda que essa leitura seja atravessada por contingências, perdas e contextos que raramente são reconhecidos.
As relações aparecem como capítulos interrompidos. Quatro filhos, quatro netas, mas um sentimento de distância que transforma presença biológica em ausência afetiva. Dois casamentos encerrados, um terceiro vivido sem a segurança de permanência. O amor, quando não se traduz em sustentação, passa a ser percebido como risco. Amigos e país ficaram para trás, como se o mundo conhecido tivesse se dissolvido, restando apenas o indivíduo diante de si mesmo.
Diante desse cenário, a pergunta “o que me resta?” surge não como provocação filosófica, mas como constatação amarga. O que resta é o dever, a obrigação, a sobrevivência nua. E quando a vida se reduz apenas a isso, o desejo de não estar mais aqui aparece não como drama, mas como exaustão. Não se trata exatamente de querer morrer, mas de não querer continuar vivendo desse modo, sob esse peso, sem sentido aparente.
Este não é um texto de revolta estridente, mas de desalento silencioso. Um inventário honesto de perdas, de limites e de um sujeito cansado de esperar que algo finalmente dê certo. É o retrato de alguém que não romantiza a dor, não aposta em discursos fáceis de esperança, e que olha para a própria história com a severidade de quem já não acredita em promessas — apenas em fatos.