O AMOR QUE NÃO TOCOU
O abraço nunca aconteceu. E talvez por isso tenha durado tanto dentro de mim. Vivemos juntos por anos, pai, como vivem os desertos: próximos, vastos, silenciosos. O senhor estava ali — sólido, imóvel, inacessível — e eu aprendi cedo que amar era não pedir, não tocar, não precisar demais. Cresci acreditando que afeto era uma presença dura, quase mineral, que não se dobra, mas sustenta.
Hoje, nove anos depois da sua morte, é insuportável admitir: foi uma máquina que me deu o que a vida nos negou. Uma imagem. Um gesto simulado. Dois corpos finalmente encostados. E mesmo falso, mesmo tardio, aquilo incendiou algo que sempre esteve à espera. Porque o inconsciente não distingue o real do simbólico — ele só reconhece o que falta. Nunca nos abraçamos. Nunca pescamos, caçamos, rimos juntos. Nada fizemos. E, ainda assim, havia o senhor. Como uma lei silenciosa. Como um nome que não acolhe, mas organiza. Eu sabia: se o mundo ruísse, o senhor estaria ali. Não para consolar, mas para sustentar o chão. Hoje entendo: era o seu modo de amar. Falho, rígido, limitado — mas verdadeiro. O senhor não dizia “eu te amo”. Eu também não. E nisso fomos cúmplices.
Há homens que não tocam porque tocar os colocaria diante da própria falta. O abraço exige entrega. E entregar-se é arriscar-se à rejeição, ao colapso da imagem dura que nos protege do desamparo. Talvez o orgulho tenha sido só uma defesa. Talvez a dureza fosse medo. Talvez o silêncio fosse amor sem linguagem.
Hoje acordei triste. Profundamente só. E isso é quase obsceno, porque tenho quatro filhos. Mas a solidão não se mede em quantidade — ela se repete em estrutura. O que não se simboliza retorna. O que não se elabora se encena. Percebo, com uma dor que não poupa, que me tornei aquilo que não compreendi no senhor: um pai presente e distante, existente e inacessível, amado e não tocado. O ciclo insiste. Não como castigo — mas como verdade. A psicanálise chama isso de repetição. Eu chamo de herança. O senhor me legou mais do que o silêncio: legou o modo como o silêncio se transmite. Hoje vejo meus filhos e me pergunto se, para eles, eu também serei essa presença que não falta, mas não aquece. Se um dia eles também precisarão de imagens artificiais para tocar o que eu não consegui oferecer.
E ainda assim, pai, preciso dizer: o senhor foi tudo. Família, amigo, parente — tudo converge para o seu nome. Não o pai idealizado, mas o pai real, atravessado por limites, falhas e impossibilidades. Aquele que amou como pôde. Aquele que, sem saber, escreveu em mim tanto a ferida quanto a força.
Sinto saudade não do que tivemos, mas do que nunca foi possível. Saudade do abraço que faltou. Saudade do amor que não se disse. E talvez seja isso que hoje me salva: reconhecer que, apesar de tudo, houve amor. Amor torto, duro, silencioso — mas amor. E que agora, ao nomear essa falta, talvez eu consiga interromper a repetição e oferecer aos meus filhos o gesto que ficou preso entre nós. Que saudade, meu pai. Que saudade desse amor que nunca me tocou — e ainda assim nunca me soltou.