O NATAL, O CANSAÇO DE FINGIR ALEGRIA
As pessoas repetem “feliz Natal” como quem distribui panfletos. A expressão circula solta, automática, descolada da experiência real. Eu me pergunto: que felicidade é essa? Porque, para mim, nada mudou. Aliás, se mudou, foi para pior.
Há algo de profundamente estranho nessa felicidade natalina: ela não nasce do vivido, mas da obrigação. É uma felicidade performática, exigida por calendário, sustentada por luzes artificiais, músicas repetidas e sorrisos treinados. Não importa se o sujeito está endividado, enlutado, solitário ou cansado da própria existência — espera-se que ele esteja feliz. É Natal. Sorria.
O Natal se tornou uma espécie de chantagem emocional coletiva. Quem não adere ao clima é visto como amargo, ingrato ou problemático. Mas talvez o problema não esteja em quem não sente felicidade, e sim nessa ideia de que a felicidade pode ser decretada por uma data. Como se o sofrimento tivesse prazo para tirar férias. Como se a vida obedecesse ao comércio, ao marketing e às frases prontas.
Dizem que é tempo de renovação. Mas que renovação é possível quando o ano foi uma sucessão de perdas, frustrações e sobrevivência? Quando os problemas continuam sentados à mesa, só que agora ao lado de um peru caro? Para muitos, o Natal apenas escancara aquilo que o resto do ano consegue disfarçar: a ausência, a desigualdade, a falência dos laços, o cansaço de existir.
Talvez o incômodo venha daí: da distância entre o discurso e a realidade. Enquanto se deseja “paz”, o mundo segue violento. Enquanto se fala em “amor”, relações continuam marcadas por abandono e interesse. Enquanto se deseja “prosperidade”, a conta não fecha. A felicidade natalina não transforma nada — apenas cobre tudo com papel colorido.
Não é que eu seja contra a alegria. Sou contra a mentira. Contra a ideia de que todos devem sentir o mesmo, ao mesmo tempo, do mesmo jeito. Contra a imposição de uma felicidade que ignora o real do sujeito. Há quem atravesse o Natal apenas tentando não desmoronar — e isso já é muito.
Talvez fosse mais honesto desejar lucidez em vez de felicidade. Ou silêncio. Ou respeito pela dor alheia. Talvez o Natal precisasse menos de euforia e mais de verdade. Porque, para alguns de nós, nada mudou. E fingir que mudou não torna as coisas melhores — apenas mais falsas.