DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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A VELHA LUTA, A MESMA GRAÇA

 

 

Raramente fazemos aquilo que sabemos ser o certo a fazer. Essa é uma condição própria do ser humano, marcada pela presença da natureza pecaminosa que nele habita. Trata-se da guerra interior que todos enfrentamos — e que o apóstolo Paulo descreveu com precisão quando afirmou:

 

“Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei em mim: quando quero fazer o bem, o mal habita em mim” (Rm 7.19–21).

 

O encerramento de um ano e a chegada de outro sempre mexem profundamente com as emoções humanas. A alma, já fragilizada, e os sentimentos à flor da pele, intensificados pelo período natalino, fazem com que muitos se revistam de um heroísmo imaginário, acreditando ser possível consertar tudo, mudar o mundo — ou até mesmo o universo — de uma só vez. Nesse contexto, pensar pequeno parece quase um pecado. Exigem-se gestos grandiosos, decisões triunfantes, atitudes épicas. Não faz sentido desejar ser comum quando se acredita poder ser extraordinário.

 

É nesse ponto que a mente, levada pelo entusiasmo, passa a voar alto, muitas vezes inconsciente de suas limitações. Entende-se que pensar não basta; é preciso agir — ainda que tal ação seja fruto de devaneios, alimentados pela velha tensão entre o querer fazer o bem e a inclinação para o mal. Contudo, a alma sempre recorre a um artifício conhecido: a promessa. Promessas, votos, pactos, ofertas, determinações. Determinar torna-se a palavra de ordem, e o modismo espiritual passa a ditar a prática religiosa.

 

Recentemente, ao deixar a televisão ligada durante a madrugada, deparei-me com um desses programas triunfalistas, travestidos de espiritualidade cristã. Um pregador afirmava, com tom categórico, que determinado líder religioso estaria “determinando” um fim de ano de vitória, prosperidade e transformação total da vida e do casamento de seus ouvintes.

 

Muitos acolhem tais palavras como verdade absoluta e nelas depositam toda a sua esperança. Acreditam que, para mudar a própria vida, a vida dos outros ou mesmo o mundo, basta declarar, determinar ou repetir fórmulas religiosas. Submetem-se a rituais, objetos supostamente ungidos, campanhas financeiras e discursos carregados de promessas vazias. Confiam que frases prontas e atos simbólicos substituirão a transformação interior exigida por Deus. Meus irmãos, tudo isso não passa de vaidade. Como afirmou o sábio: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Ec 1.2). A palavra hebraica hevel (הבל) traduz essa ideia como vapor, sopro, algo passageiro e inconsistente. Assim são todos os ídolos nos quais o homem deposita sua confiança — sejam pessoas, objetos ou palavras. Nada disso permanece. Tudo se dissipa com o tempo.

 

Se Jesus Cristo não operar em nós as mudanças que almejamos, ano após ano continuaremos os mesmos. Se nossa vida não for cristocêntrica, nenhuma promessa produzirá transformação real. Mas, quando Cristo ocupa o centro da nossa vontade, mesmo em meio às lutas interiores, o Espírito Santo nos conduz ao bem, à santidade e à perseverança. Isso nos basta. Nele somos mais do que vencedores. O próprio Senhor declarou: “Eu venci o mundo” (Jo 16.33). E, se Ele venceu, n’Ele também venceremos.

 

Não se trata de viver sem alvos, sem planos ou compromissos. Trata-se de compreender que toda mudança verdadeira começa em Cristo e se manifesta primeiro em nós. Não confiamos em homens, nem em fórmulas, tampouco em nós mesmos, mas lançamos nossas ansiedades aos pés da cruz. A partir dessa transformação interior, outros também serão alcançados pelo testemunho da nossa mudança.

 

Que você e sua família vivam um ano de bênção na presença do Senhor. Que haja mudança — mudança real, profunda e duradoura. Que o novo ano seja, de fato, novo, porque Cristo reina no centro da vida e do coração.

 

 

Em Cristo,

servo de Cristo e vosso conservo.

Autor: Jeovan Rangel

 

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 25/12/2025
Alterado em 25/12/2025