POESIA EM GLOSA - ANTES DA FLOR
Mote:
Se não tenho as sementes, nunca terei as flores.
(Desconhecido)
Glosa:
Carrego sonhos nos bolsos vazios,
Planos traçados em solos sem cor,
Quero colher sem suportar os frios
Do tempo lento que ensina o labor.
Aprendi tarde, entre dores e horrores:
Não há primavera sem antes temores.
A vida é clara em seus duros valores:
Se não tenho as sementes, nunca terei as flores.
Desejo atalhos, mas ignoro o chão,
Rejeito o arado, apresso a estação;
Quero o perfume sem sujar a mão,
Quero o jardim sem preparação.
Mas a verdade não aceita penhores,
Não negocia com falsos ardores,
Ensina em silêncio, sem muitos clamores:
Se não tenho as sementes, nunca terei as flores.
Cada escolha é um gesto lançado ao chão,
Cada renúncia, um campo que morre;
O futuro nasce da decisão
Que hoje sangra, mas amanhã socorre.
Não brota o fruto dos meros clamores,
Nem da espera vazia de favores;
Colhe somente quem planta entre dores:
Se não tenho as sementes, nunca terei as flores.
Assim caminho, mais lúcido e forte,
Aceito o custo de tudo o que espero;
Plantar é também um pacto com a sorte,
Um ato de fé no amanhã sincero.
Que eu não lamente destinos menores,
Nem culpe o tempo por meus dissabores;
Pois a lei da vida, sem retoques ou cores:
Se não tenho as sementes, nunca terei as flores.
Porto Seguro, Bahia, 18 de Dezembro de 2025.
Essa poesia é o retrato da minha vida, pintado pelo tempo. Estou em cada verso, em cada linha e nas entrelinhas