SONHO DE AÇO, CORPO DE BARRO
Sonhei sem dor, sem despedida,
sem a sombra da finitude,
era invencível em atitude,
sem conhecer queda ou ferida.
A alma, de ilusão vestida,
não temia perda ou desespero;
eu cria no mundo inteiro
como quem nunca sangrou sequer,
pois antes de aprender a ser,
em meu sonho mais puro e sincero.
Não sabia que o tempo cobra
tudo o que parece dom,
nem que a vida diz “não”
quando o orgulho se desdobra.
Eu pensava que a dor não sobra
a quem nasce tão moderno;
sem luto, limite ou inverno,
quis negar a condição mortal,
achando natural
quis ser, inocentemente, eterno.
Minha força era desatenção,
não virtude amadurecida,
pois só conhece a própria vida
quem já provou contradição.
Eu não sabia que a mão
só sustenta o que também treme;
era um corpo que não teme,
um peito fechado ao sofrer,
e por nada ainda saber,
forte eu era; inabalável sempre.
Mas despertei — e a luz do dia
trouxe peso, chão e falha,
vi que a dor também trabalha
naquilo que nos refaz.
Ser homem não é incapaz,
é sustentar-se mesmo em fome;
é amar sabendo o nome
da perda que pode vir,
e ainda assim prosseguir:
Acordei sendo apenas homem.