DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

SONHO DE AÇO, CORPO DE BARRO

 

Sonhei sem dor, sem despedida,

sem a sombra da finitude,

era invencível em atitude,

sem conhecer queda ou ferida.

A alma, de ilusão vestida,

não temia perda ou desespero;

eu cria no mundo inteiro

como quem nunca sangrou sequer,

pois antes de aprender a ser,

em meu sonho mais puro e sincero.

 

Não sabia que o tempo cobra

tudo o que parece dom,

nem que a vida diz “não”

quando o orgulho se desdobra.

Eu pensava que a dor não sobra

a quem nasce tão moderno;

sem luto, limite ou inverno,

quis negar a condição mortal,

achando natural

quis ser, inocentemente, eterno.

 

Minha força era desatenção,

não virtude amadurecida,

pois só conhece a própria vida

quem já provou contradição.

Eu não sabia que a mão

só sustenta o que também treme;

era um corpo que não teme,

um peito fechado ao sofrer,

e por nada ainda saber,

forte eu era; inabalável sempre.

 

Mas despertei — e a luz do dia

trouxe peso, chão e falha,

vi que a dor também trabalha

naquilo que nos refaz.

Ser homem não é incapaz,

é sustentar-se mesmo em fome;

é amar sabendo o nome

da perda que pode vir,

e ainda assim prosseguir:

Acordei sendo apenas homem.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 17/12/2025
Alterado em 17/12/2025