DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
Textos

CRÔNICA — “A COR QUE NÃO DIZ NADA”

 

Há coisas na vida que parecem óbvias demais para virarem discussão, mas, por algum motivo, viraram. E uma delas é essa mania recente de pedir que as pessoas “tomem consciência” da própria cor, como se alguém precisasse acordar de manhã e lembrar: “ah, é verdade, eu sou negro”; “é mesmo, eu sou branco”. Ora, ninguém precisa disso.

 

A cor da pele nunca foi uma conquista, nem um mérito, nem um demérito. Não é um troféu, não é uma culpa, não é uma bandeira. A cor só está ali, cumprindo o papel biológico que a natureza lhe deu, sem pedir aplauso e sem pedir desculpa. A cor não salva ninguém, mas também não condena ninguém. Ela apenas existe — e existir, às vezes, é o bastante.

 

O que faz uma pessoa ser grande ou pequena não está no tom da epiderme, mas no caráter que ela cultiva quando ninguém está olhando. Está na palavra cumprida, na honestidade preservada, no trabalho feito com dignidade, no cuidado com a família, na mão estendida a quem tropeça. Isso sim exige consciência. Isso sim requer vigilância diária. Isso sim deve ser lembrado — todos os dias.

 

Porque, no fundo, quando a sociedade começa a olhar demais para a cor, ela inevitavelmente começa a ver menos o indivíduo. E quando o indivíduo desaparece, desaparece também a responsabilidade pessoal, aquela chama silenciosa que separa o homem íntegro do homem covarde. A cor é simples. O caráter, não.

 

Talvez por isso eu diga, sem medo de parecer ríspido: ninguém precisa estar consciente de que é branco ou negro. As pessoas precisam estar conscientes de que são humanas — e que, sendo humanas, carregam sobre si o dever de fazer o bem, de trabalhar direito, de honrar a si mesmas e aos outros.

 

Se existir um dia dedicado a essa consciência — à consciência do valor humano — eu celebro. Até lá, continuo acreditando que a melhor cor do mundo é aquela que ninguém vê, porque está escondida por baixo da pele: a cor das escolhas que cada um faz.

 

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 20/11/2025
Alterado em 20/11/2025