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JESSICA CARVALHO SANTOS -CARTA ABERTA

 

JÉSSICA CARVALHO DOS SANTOS – CARTA ABERTA

Minha filha,

Minha Jéssica.

Minha princesa.

Hoje acordei — como acordo todos os dias — com você na memória e na oração. É instintivo: abro os olhos e o pensamento corre até você. E, junto com essa lembrança boa, nasce também uma tristeza silenciosa... aquela dor mansa de sentir falta de quem está vivo, mas distante.

Sinto saudade. Uma saudade que não reclama alto, mas que pesa fundo. Às vezes, confesso, abro o celular na esperança de encontrar um áudio seu dizendo: "Bom dia, pai. Vim deixar um beijo." Ou fico apenas olhando a tela, esperando que ela toque, imaginando ouvir a sua voz dizendo: "Pai, estou ligando só para saber como o senhor está... e para dizer que eu te amo."

Essa cena vive dentro de mim. Mas, na vida real, ela nunca aconteceu. Quase todas as nossas conversas nasceram porque eu chamei primeiro. Quase todas as ligações partiram de mim. E isso me machuca. Não porque você me deva alguma coisa, mas porque sinto a sua ausência mesmo você estando tão perto. E dói porque você sempre foi a minha menina. A minha princesa. A parte mais doce da minha história.

Hoje, com mais rugas na alma do que no rosto, consigo enxergar o pai ausente que fui. Repeti com você o que recebi dos meus pais: uma casa sem toque, sem abraço, sem beijo, sem "eu te amo". Um silêncio hereditário, passado de geração em geração.

Entre nós, quebramos uma parte disso. Quando nos encontramos, nos abraçamos, nos beijamos e dizemos que nos amamos. Mas, ainda assim, para o meu coração, parece pouco diante dos dias que passam e da sensação de que você vai se afastando um pouquinho mais a cada amanhecer.

Filha, trabalhei demais. Vivi cansado demais. Dediquei horas demais à igreja, ao mundo e aos outros. E, sem perceber, tirei tempo de mim e de vocês. Há uma ironia dolorida nisso tudo: vejo tanto de mim em você. Sua generosidade, sua entrega, sua preocupação com os outros e o seu jeito de carregar o mundo nas costas. Isso é tão meu, tão nosso, que chega a ser bonito e triste ao mesmo tempo.

Escrevi esta carta há algum tempo, na esperança de que ela fosse lida quando eu já não estivesse mais aqui. Era como se eu estivesse deixando um pedaço do meu coração para lhe fazer companhia quando a minha voz já não pudesse mais alcançá-la. Pensei que talvez fosse mais fácil dizer tudo isso através da ausência do que através da minha presença.

Mas hoje, enquanto orava por você — como faço todos os dias — senti que não deveria esperar pela minha partida para lhe dizer aquilo que ainda posso dizer olhando para a vida. E, por isso, resolvi lhe enviar esta carta hoje. O amor não deveria esperar a morte para encontrar palavras.

E há algo que preciso lhe dizer, minha filha, talvez pela milésima vez, mas nunca será demais: perdoe-me.

Não me perdoe porque sou seu pai. Não me perdoe porque o tempo me fez envelhecer. Não me perdoe porque minhas lágrimas lhe parecem sinceras. Se um dia me perdoar, que seja apenas porque decidiu libertar o seu coração do peso das dores que eu lhe causei.

Eu lhe devo um pedido de perdão muito maior do que todas as palavras que consigo escrever.

Perdoe-me por todas as minhas ausências. Pelas vezes em que você precisou do seu pai e eu não estava lá como deveria estar. Pelos momentos da sua infância que me foram confiados por Deus e que jamais me serão devolvidos pelo tempo. Perdoe-me por não ter sido o porto seguro que sonhei ser para você.

Há uma confissão que me humilha e me entristece profundamente: eu poderia ter sido um pai muito melhor.

Poderia ter abraçado mais, ouvido mais, estado mais presente. Poderia ter amado melhor. E talvez esta seja uma das maiores dores que carregarei até o último dos meus dias.

Por muitos anos pensei que amar era trabalhar, prover, cuidar e me sacrificar pelos outros. Hoje compreendo que amar também é permanecer. É fazer-se presente. É oferecer tempo, colo e silêncio compartilhado.

Nenhum pai deveria descobrir tarde demais que os seus filhos cresceram enquanto ele estava ocupado demais tentando carregar o mundo nas costas.

Se eu pudesse voltar no tempo, pisaria descalço sobre todos os espinhos da minha caminhada para lhe oferecer apenas uma coisa: mais presença. Trocaria muitas das minhas conquistas por alguns anos a mais sendo simplesmente o seu pai.

Mas o tempo possui uma crueldade irremediável: ele nos permite o arrependimento, mas não nos devolve as oportunidades perdidas.

Por isso, tudo o que me resta é dobrar os joelhos da minha alma diante de você e lhe dizer, com toda a humildade que ainda me cabe: perdoe-me.

Se as minhas ausências deixaram marcas em você, perdoe-me.

Se em algum momento da sua vida lhe faltou o abraço do seu pai, perdoe-me.

Se lhe faltaram palavras, presença ou acolhimento, perdoe-me.

E, se um dia você não conseguir me perdoar completamente, eu compreenderei. O perdão nunca pode ser exigido; ele só pode ser oferecido pelo amor.

Mas há algo que nem os meus erros conseguiram mudar: eu te amo.

Profundamente.

Incondicionalmente.

Silenciosamente.

E para sempre.

Minha filha, minha princesa, eu daria a minha vida pela sua quantas vezes Deus me permitisse fazê-lo. Você sempre será a minha menina, ainda que os anos passem e a vida nos conduza por caminhos diferentes.

Enquanto houver vida em mim, haverá amor por você.

E, quando eu já não estiver aqui, quero que você saiba apenas uma coisa: houve neste mundo um homem profundamente imperfeito que a amou mais do que soube demonstrar. Um pai cheio de falhas, arrependido dos seus erros, mas transbordando de amor pela sua filha.

Nunca fui o pai que você merecia. Mas nunca deixei de ser o pai que a ama.

Eu te amei antes mesmo de conhecer o seu rosto. Amo você hoje. E a amarei até o meu último suspiro.

Com amor, saudade, arrependimento e esperança,

Seu pai, Jeovan

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 16/11/2025
Alterado em 23/07/2026