THIEGO CARVALHO SANTOS – CARTA ABERTA
Meu filho,
Hoje escrevo com o coração apertado, doendo de uma dor que não grita, mas que corrói em silêncio. Uma dor que tem me acompanhado dia após dia. À medida que o tempo passa, carrego uma esperança teimosa: a de ouvir o toque do telefone, uma mensagem sua no WhatsApp, um simples "Pai, como você está?". Mas essa mensagem nunca vem. O silêncio tem sido meu companheiro constante — e só rompemos esse silêncio quando eu mesmo tomo a iniciativa. Se eu não falo, parece que você também não fala. E isso corta profundamente.
Tenho pensado muito sobre isso. Muito. E, entre lágrimas caladas, reconheço a minha parcela de culpa. Fui um pai ausente. Poderia justificar dizendo que trabalhava demais, que saía de manhã e só voltava à noite, que vivíamos da correria e do cansaço. Sua mãe pode confirmar tudo isso. Mas, ainda assim, não me escondo atrás dessas explicações. A verdade é que, mesmo nos momentos em que eu tinha tempo, eu poderia ter escolhido você. Poderia ter sentado ao seu lado, brincado com você, abraçado mais, beijado mais e feito você sentir o meu amor de forma concreta, presente e viva. E não fiz.
Dentro de mim, reproduzi a criação que recebi. Cresci sem abraços, sem colo, sem um beijo sequer do meu pai. É triste dizer, mas não tenho uma única lembrança dele me envolvendo nos braços. E, de alguma forma, mesmo tentando ser diferente, repeti esse vazio em você.
Mais tarde, já adulto, tentei me aproximar. Tentei recuperar o tempo. Te abracei, te beijei, e houve momentos em que você retribuiu — e, por um instante, parecia que estávamos quebrando anos de silêncio e distância. Parecia possível construir algo novo.
Mas hoje percebo que a ferida é mais profunda do que eu imaginava. Talvez exista dentro de você um sentimento por mim, escondido, abafado, guardado em algum lugar do coração que ainda não foi alcançado pelo tempo. Ou talvez eu esteja apenas aprendendo que algumas ausências deixam marcas maiores do que as nossas forças conseguem reparar.
Escrevi esta carta há algum tempo, na esperança de que ela fosse lida quando eu já não estivesse mais aqui. Era como se eu estivesse deixando um pedaço do meu coração para lhe fazer companhia na minha ausência. Pensei que talvez fosse menos doloroso dizer tudo isso quando já não pudesse mais vê-lo sofrer pelas minhas palavras.
Mas hoje, enquanto orava por você, senti que o amor não deveria esperar pela morte para encontrar palavras. E foi por isso que resolvi lhe enviar esta carta hoje. Enquanto ainda posso chamá-lo de filho. Enquanto ainda posso dizer-lhe que o amo. Enquanto ainda posso pedir-lhe perdão.
E há algo que preciso lhe dizer, meu filho, talvez pela milésima vez, mas nunca será demais: perdoe-me.
Não me perdoe porque sou o seu pai. Não me perdoe porque o tempo me tornou um homem mais velho e mais consciente das minhas falhas. Não me perdoe porque minhas lágrimas lhe parecem sinceras. Se um dia me perdoar, que seja apenas porque decidiu libertar o seu coração das dores que eu mesmo ajudei a construir.
Eu lhe devo um pedido de perdão muito maior do que todas as palavras que consigo escrever.
Perdoe-me pelas minhas ausências. Pelos abraços que não lhe dei. Pelas conversas que não tivemos. Pelos momentos em que você precisou do seu pai e encontrou apenas um homem cansado, ocupado ou distante.
Perdoe-me por não ter compreendido que um filho precisa menos das coisas que um pai lhe oferece e muito mais da presença daquele que as oferece.
Há uma confissão que me humilha profundamente: eu poderia ter sido um pai muito melhor.
Poderia ter sido mais presente. Poderia ter ouvido mais do que falei. Poderia ter permanecido quando era apenas disso que você precisava. Poderia ter amado melhor.
E talvez esta seja uma das maiores dores que carregarei até o último dos meus dias.
Hoje compreendo que amar também é permanecer. É oferecer tempo. É construir memórias. É fazer do abraço um lugar seguro para onde um filho sempre deseja voltar.
Nenhum sucesso da vida vale o preço de uma ausência dentro da própria casa.
Se eu pudesse voltar no tempo, pisaria descalço sobre todos os espinhos da minha caminhada apenas para lhe oferecer alguns anos a mais da minha presença. Trocaria muitas das minhas conquistas pelo privilégio de vê-lo crescer novamente, desta vez sendo o pai que eu deveria ter sido.
Mas o tempo possui uma crueldade da qual nenhum homem escapa: ele nos permite arrepender-nos, mas jamais nos devolve as oportunidades perdidas.
Por isso, tudo o que me resta é dobrar os joelhos da minha alma diante de você e lhe dizer, com toda a humildade que ainda me cabe: perdoe-me.
Se as minhas ausências deixaram feridas em você, perdoe-me.
Se em algum momento da sua vida lhe faltou o abraço do seu pai, perdoe-me.
Se lhe faltaram palavras, acolhimento ou presença, perdoe-me.
E, se um dia você não conseguir me perdoar completamente, eu compreenderei. O perdão nunca poderá ser exigido; ele só pode ser concedido pelo amor.
Meu filho, eu sinto a sua falta. Uma falta que não cabe no peito.
Mas há algo que nem os meus erros conseguiram mudar: eu te amo.
Profundamente.
Incondicionalmente.
Silenciosamente.
E para sempre.
Enquanto houver vida em mim, haverá amor por você.
E, quando eu já não estiver aqui, quero que você saiba apenas uma coisa: houve neste mundo um homem profundamente imperfeito que o amou mais do que soube demonstrar. Um pai cheio de falhas, arrependido dos seus erros, mas transbordando de amor pelo seu filho.
Nunca fui o pai que você merecia. Mas nunca deixei de ser o pai que o ama.
Eu o amei desde antes de conhecer o seu rosto. Amo você hoje. E o amarei até o meu último suspiro.
Com amor, saudade, arrependimento e esperança,
Seu pai,
Jeovan Rangel