CONFISSÕES DE UM INFIEL
“Não abandones a lealdade e a fidelidade. Guarde-as sempre bem gravadas no seu coração” (Provérbios 3.3).
Singrando a nau sobre as águas agitadas do meu pensamento, absorto, pervagando pela história da humanidade, percebo que a palavra fidelidade vem perdendo o seu sentido mais puro ao longo da minha odisseia mental. Em certos momentos do caminho, percebo que ela já caiu em descrédito e, agora, tão próxima à nossa realidade, vejo-a quase extinta.
Sinto que a fidelidade já não cabe em muitos segmentos da sociedade. E, ainda que eu a procure de lupa em punho, dificilmente a encontro. A humanidade tem perdido os valores mais simples e essenciais que norteiam a vida. O mundo evolui em tantas coisas, mas regride em outras com assustadora rapidez.
Parece-me que há uma pressa em se conquistar a depravação e a ruína moral. E, infelizmente, eu mesmo percebo que caminho junto com essa humanidade. Quando arrancamos as colunas que sustentam uma casa, o desabamento é inevitável. E eu sei que, em muitos momentos da minha vida, também arranquei colunas que sustentavam a minha própria estrutura espiritual.
Tenho de admitir: eu também fui infiel. Infiel a pessoas que confiaram em mim. Infiel a promessas que fiz. Infiel a princípios que um dia jurei defender. Infiel, às vezes, até a mim mesmo e à voz de Deus que sussurrava no íntimo do meu ser.
Não falo da infidelidade como quem a observa de fora, mas como quem a conhece por dentro — porque ela já passou por mim, já me venceu, já me fez cair.
Vejo que a fidelidade está morrendo, e eu sei o quanto contribuí para essa morte. Cada vez que escolhi o caminho mais fácil, cada vez que calei quando devia defender a verdade, cada vez que traí uma confiança, ajudei a empurrar a fidelidade um pouco mais para o túmulo.
A fidelidade conjugal se perdeu; a fidelidade familiar se enfraqueceu; a fidelidade a Deus se dilui em conveniências. E eu me vejo dentro desse quadro, às vezes cansado, tentando recuperar o que deixei morrer em mim.
Observo o mundo e percebo: os homens trocam de aliança como quem troca de roupa; os políticos mudam de partido como quem muda de ideia; os crentes trocam de igreja como quem troca de roupa espiritual — e eu, em silêncio, percebo o quanto também oscilei em minhas convicções.
Houve dias em que eu busquei uma fé que me agradasse, não uma fé que me transformasse. Houve dias em que quis um Deus que me poupasse, e não um Deus que me confrontasse. Houve dias em que fui apenas mais um adorador de conveniências — e, por isso, também fui infiel.
Eu sei o que é dizer uma coisa e viver outra. Sei o que é ser incoerente. Sei o que é tentar parecer fiel enquanto o coração está dividido. A infidelidade não é apenas o adultério do corpo — é o adultério da alma. E eu já pequei nisso muitas vezes.
Quando olho para mim, percebo que não sou melhor do que o mundo que critico. Tenho dentro de mim as mesmas contradições que denuncio. E talvez seja exatamente por isso que falo com tanta veemência: porque conheço a dor de quem trai e de quem é traído, de quem promete e não cumpre, de quem ora pedindo perdão e depois tropeça outra vez.
Eu sou parte dessa humanidade cansada e confusa que está matando a fidelidade — e isso me envergonha. Mas eu também creio que há esperança. Creio que Deus pode ressuscitar a fidelidade em mim, em nós, no mundo. Creio que ainda é possível reconstruir pilares, reacender compromissos, restaurar alianças.
Por isso, peço a Deus que me mude, que me lave, que me refaça. Quero ser fiel — ainda que isso me custe. Quero ser fiel nas palavras, nos gestos, nos relacionamentos e na fé.
Porque, apesar da minha infidelidade, Deus permaneceu fiel a mim. Ele nunca desistiu. E é essa fidelidade divina que me constrange, que me cura e me chama de volta ao compromisso.
Que Deus tenha misericórdia deste mundo — e de mim também —, que tantas vezes arranca seus próprios pilares e caminha para a ruína. Que eu seja um dos que decidem reconstruir, e não destruir. Quero ser fiel. Deus é fiel a mim — e eu quero ser fiel a Ele.
Amém!
Autor: Jeovan Rangel
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