DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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O SILÊNCIO DAS TELAS

 

Vivemos uma era em que as pessoas parecem mais conectadas do que nunca — e, paradoxalmente, mais distantes também. É assustador perceber como o diálogo desaparece aos poucos das relações mais próximas.

 

Sou psicanalista e também motorista de aplicativo, e em ambas as funções observo o mesmo fenômeno: o esvaziamento dos vínculos humanos. Todos os dias vejo famílias entrarem no consultório ou no meu carro, cada uma com o celular na mão, teclando com alguém distante. Quatro pessoas viajam juntas e nenhuma troca sequer uma palavra. Ninguém se olha, ninguém se cumprimenta. Entram mudas e saem mudas — conectadas ao mundo, mas completamente desligadas umas das outras.

 

Não há mais “bom dia”, “boa noite”, nem um simples olhar de gentileza. A presença humana foi substituída pela presença digital. E o mais triste é perceber que isso não acontece apenas nas ruas — acontece dentro das nossas casas.

 

Pais e filhos já não conversam. Maridos e esposas dividem o mesmo teto, mas vivem em mundos paralelos, cada um envolto em sua própria tela. Estamos presentes, mas ausentes. Juntos, mas sozinhos.

 

Como psicanalista, percebo o quanto essa ausência de diálogo tem adoecido as pessoas. A solidão, a ansiedade e a desconexão emocional se tornaram sintomas cotidianos. Estamos cada vez mais rodeados de gente, mas com o coração vazio.

 

Dias atrás, ouvi o relato de um policial que atendeu a uma ocorrência devastadora. Ao chegar, encontrou uma família em desespero: o pai tremia na sala, a mãe chorava inconsolável, o irmão estava em choque. No quarto, a filha — uma jovem — havia tirado a própria vida. Em sua mão, um bilhete curto, mas dilacerante:

 

> “Eu só queria falar.”

 

A mãe contou que, minutos antes, estavam todos à mesa jantando. O pai via vídeos no celular, a mãe conversava num grupo de família, o irmão jogava, e a filha, em silêncio, mexia na comida. Terminou de comer, levantou-se, foi para o quarto — e nunca mais voltou.

 

Essa cena resume com dor aquilo que temos nos tornado: pessoas cercadas de vozes, mas sem escuta; famílias conectadas, mas sem comunicação; seres humanos famintos de atenção, mas distraídos demais para perceber o grito do outro.

 

É hora de acordar. De levantar os olhos e reencontrar o outro — o real, o de carne e osso, o que sente, fala e escuta. Nenhum “like” substitui o calor de um abraço. Nenhuma notificação vale mais que uma boa conversa.

 

Se não mudarmos agora, corremos o risco de criar uma geração incapaz de olhar nos olhos, de sentir empatia e de viver de verdade.

 

Desconecte-se um pouco. Reconecte-se com quem está ao seu lado. O mundo precisa menos de Wi-Fi e mais de olhares humanos.

 

 

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 21/10/2025
Alterado em 21/10/2025