CREPÚSCULO DE MIM
Meus dias, agora, têm peso e contagem. Sinto-os escorrer, minguando como rios que se perdem no deserto. Já vivi mais do que viverei; vejo isso nas minhas mãos, na pele amarronzada, nas veias grossas que se erguem como raízes à flor da terra, nas rugas que surgem, silenciosas, sobrepondo-se à minha vontade como marés inevitáveis.
Perco peso mesmo quando tento retê-lo, como se o corpo quisesse se tornar mais leve para a travessia que se aproxima. A mente ainda é a mesma, cheia das vontades de outrora, mas o corpo já não responde às escadas, às distâncias, aos pequenos esforços. Os joelhos doem, as pernas tremem, como se me lembrassem que já não sou aquele de antes.
Olho para o tempo e vejo, como um cemitério sem muros, tantos amigos, parentes, amores levados pelo vento dos dias. Às vezes penso que este mundo já não é mais meu, que eu sou uma sombra que vaga num cenário que mudou de dono. E confesso — num sopro baixo, íntimo — que peço a Deus, em algumas noites, que me recolha.
Diante do espelho, procuro-me. Vejo um rosto desconhecido onde morava o garoto altivo que fui. Digo a mim mesmo: não, não é mais você por fora. Mas aqui dentro, ainda estou. Minha essência, minhas vontades, meus acertos e, sobretudo, meus erros — todos guardados como brasas acesas no fundo de um forno antigo.
E, no entanto, não falo isso com tristeza. Há um gosto de aceitação nessa consciência de partida. Se meus dias estão contados, também estão plenos. E há uma satisfação silenciosa em saber que, mesmo indo, algo de mim permanece — um sopro, uma lembrança, um eco que não se apaga.