DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

ENTRE OURO E ABRAÇO 

 

Quanto vale uma vida? A pergunta sobre o valor da vida atravessa séculos de pensamento humano. Desde as antigas reflexões dos filósofos gregos até as críticas modernas ao capitalismo, ela retorna como um eco que insiste em nos confrontar. Hoje, porém, parece que a resposta se reduziu a uma lógica única: uma vida vale pelo que se tem, não pelo que se é.

 

O “ser” foi eclipsado pelo “ter”. Como dizia Marx, as relações entre pessoas foram substituídas por relações entre coisas; a dignidade humana tornou-se mercadoria. O que deveria ser expressão do cuidado, da amizade e da gratuidade, passou a ser regulado pela utilidade e pelo interesse. Assim, cargos, títulos e patrimônios se tornaram a medida do valor de alguém.

 

O exemplo da família ilustra esse paradoxo de forma dolorosa: pais que acumularam bens são cercados por filhos que os acompanham, não por ternura, mas por expectativa de herança. Já aqueles que nada possuem, ainda que tenham oferecido amor, sacrifício e presença, são muitas vezes deixados à margem. A lógica do mercado, que mede tudo em termos de lucro e perda, penetra até os vínculos mais íntimos, corroendo o que deveria ser incondicional.

 

Nietzsche já advertia que, quando os valores superiores se esvaziam, a vida é medida por critérios inferiores. O que vemos é precisamente isso: a cultura contemporânea celebra o poder, a visibilidade e o consumo, enquanto despreza aquilo que não pode ser cotado em moeda. O pai sem patrimônio, o irmão sem status, o vizinho sem posses tornam-se invisíveis, como se sua existência não tivesse peso.

 

Mesmo nas comunidades religiosas, onde se esperaria uma inversão dessa lógica, a estratificação social se infiltra. O evangelho da igualdade se torna obscurecido por uma liturgia não escrita: quem ostenta, recebe honra; quem carece, é reduzido ao silêncio. Bauman chamaria isso de “modernidade líquida”: até a espiritualidade se dissolve em aparências, onde vínculos são frágeis e afetos descartáveis.

 

Mas a pergunta permanece: quanto vale uma vida? Se o tempo reduz todas as posses a pó, se a morte dissolve todo prestígio, o que permanece? Talvez o verdadeiro valor esteja naquilo que não se pode acumular: o amor oferecido sem cálculo, a memória que floresce na ausência, o gesto de humanidade que resiste ao esquecimento.

 

No fim, o preço de uma vida não se escreve em cifras, mas em legados invisíveis. A marca de alguém não é o que deixou nos cofres, mas o que deixou nos corações. E esse valor — que não pode ser comprado, nem vendido — é o único que o tempo não consegue apagar.

 

 

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 26/09/2025