BRASÍLIA DF 1959/
BARRACOS VERSAM MEMÓRIAS
No barraco como este
Foi que eu vi a luz do dia,
De tábua fina soprada,
Onde o vento então fazia
Música em melodia
Que cantava em harmonia.
O chão era de poeira,
E às vezes barro também,
Quando a chuva castigava
Não sobrava nada além.
Mas daquilo que era pouco
Se fazia o nosso bem.
Brasília ainda menina,
Se erguendo em fundação,
Era sonho, era promessa,
Era pedra e era chão.
No suor dos candangos
Se erguia a construção.
Sou de mil novecentos
E sessenta e dois, nasci,
Carregando no meu sangue
Toda história que ouvi.
De candangos retirantes
Que vieram e resisti.
Filho de Agenor Alves,
Baiano trabalhador,
Pedreiro, mestre de obra,
Construtor e sonhador.
Na dureza da pobreza
Se forjava o seu valor.
Minha mãe estendia roupas
No varal pra se secar,
E o sol do Paranoá
Não cansava de queimar.
Entre poeira e sequidão
Vi meu povo perseverar.
As tábuas eram tão finas
Que o vento se infiltrava,
E quando a noite chegava
O frio forte cortava.
Mas a esperança aquecia
E a coragem nos guiava.
Ouvi histórias de Juscelino,
De Brasília em fundação,
De candangos que na luta
Foram donos do chão.
Vida dura, mas tão bela,
Fez-se canto e oração.
Meu pai foi um grande homem,
De caráter respeitado,
Pobre sim, mas verdadeiro,
Com seu nome honrado.
E o que dele aprendi
Carrego em todo legado.
Hoje eu digo sem receio:
Sou espelho desse pai,
Com defeitos e com erros,
Mas com força que não cai.
Homem inteiro, verdadeiro,
Do sertão até o Planai.